Wilson Aquino*
O mundo assiste, em um silêncio reverente e doloroso, às imagens que nos chegam da vizinha Venezuela. Estamos todos impactados pela magnitude dos abalos que transformaram lares em pó e ceifaram centenas de vidas de uma população que já trazia a alma calejada. O cenário é desolador: o país, que recentemente rompeu as correntes de uma ditadura sanguinária — que também deixou seu rastro de luto e opressão —, vê-se agora de joelhos diante da força implacável da natureza. Entre o concreto partido e o ferro retorcido, o que se ouve é o clamor de um povo que chora seus mortos e seus sonhos soterrados.
Diante de tamanha tragédia, surge o questionamento inevitável que ecoa no coração do homem desde o princípio dos tempos: “Por que, Senhor?”. Embora as Escrituras Sagradas nos ensine que nem uma folha cai da árvore sem o conhecimento e a autorização do Altíssimo, a mente humana é limitada demais para decifrar os desígnios da Providência. Não nos cabe responsabilizar ou criticar o Criador em meio ao caos, pois a fé não é a ausência de dúvidas, mas a decisão de confiar mesmo quando o chão nos falta.
A Palavra de Deus nos conforta justamente nesses momentos de escuridão absoluta. No Salmo 46, lemos que “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia. Portanto, não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares”. Essa promessa não é uma negação da dor, mas uma garantia de que, mesmo quando o solo físico sob nossos pés se rompe, existe um fundamento espiritual que permanece inabalável. Para os irmãos venezuelanos, essa “fortaleza” deve ser buscada na oração e na certeza de que o Criador não os abandonou à própria sorte entre os escombros.
Tudo o que nos resta é o exercício dessa resiliência espiritual. É o ato de elevar as mãos aos céus para buscar o sustento que o mundo material não pode oferecer. A história é mestra em nos mostrar que o sofrimento extremo costuma ser o berço de grandes nações. O terremoto que hoje arrasa a Venezuela me remete ao Japão de 1945. Hiroshima e Nagasaki foram reduzidas a cinzas e silêncio por mãos humanas, em um dos episódios mais sombrios da humanidade. No entanto, foi justamente daquela dor profunda que brotou uma disciplina inabalável e uma união nacional que transformou o Japão em uma potência mundial.
É preciso, portanto, enxergar além da poeira que ainda paira sobre as cidades atingidas. Assim como o ouro precisa passar pelo fogo para ser purificado, as nações enfrentam provações severas antes de encontrarem sua verdadeira grandeza. A Venezuela tem diante de si o desafio de transformar o luto em um pacto de solidariedade nacional. A reconstrução física das casas será apenas o reflexo de uma reconstrução muito mais profunda: a do espírito de um povo que aprendeu, na dor, o valor da liberdade e da fraternidade.
Minha esperança e minha oração são para que cada lágrima derramada sobre o solo venezuelano sirva para regar a semente de um povo mais forte e determinado. A Venezuela que emerge deste terremoto e do fim da tirania tem a oportunidade de se reconstruir sobre alicerces muito mais sólidos que o concreto: os alicerces da fé.
Que cada gesto de ajuda e cada mão estendida seja um sinal de que a vida sempre prevalece. A Venezuela não está apenas chorando sobre escombros; ela está, na verdade, preparando o terreno para uma colheita de dignidade e prosperidade. Que o povo venezuelano siga em frente, pois o mesmo Deus que permite a tempestade é Aquele que prepara o amanhecer de uma nação poderosa, aguerrida e renovada.
* Jornalista, Professor e Escritor



