Vacinas no combate à resistência antimicrobiana: agenda da OMS ganha debate em simpósio

Sob o tema do Dia Mundial da Saúde 2026, “Juntos pela saúde. Apoie a ciência.”, Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil promove encontro para discutir o papel da imunização no enfrentamento de uma das maiores ameaças à saúde global

A resistência aos antimicrobianos (RAM) é apontada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das maiores ameaças contemporâneas à saúde global. Durante a 79ª Assembleia Mundial da Saúde, em maio de 2026, a OMS e líderes globais reforçaram o alerta de que, sem medidas drásticas, infecções comuns podem se tornar intratáveis. Como principal linha de defesa, a organização posicionou a vacinação não apenas como prevenção primária, mas também como ferramenta crítica para frear a chamada “epidemia silenciosa” das superbactérias.

Estudos recentes validados pela OMS apontam que a otimização do uso de vacinas contra 24 patógenos prioritários pode reduzir em até 22% ao ano o consumo global de antibióticos. A lógica é direta: pessoas imunizadas contra bactérias (como as causadoras de pneumonias, alcançadas pela vacina pneumocócica) ou contra vírus que costumam levar a infecções secundárias (como gripe, Covid-19 e rotavírus) adoecem menos e, portanto, recebem menos prescrições de antibióticos, o que reduz a pressão seletiva que favorece o surgimento de cepas resistentes.

Esse é o tema de uma das conferências do II Simpósio Vacinas & Vacinação Pela Saúde Universal: Imunizações e Prevenção de Doenças no Contexto do Dia Mundial da Saúde 2026, promovido pela Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil (ACFB) no dia 2 de junho, no Instituto Butantan. A conferência “Vacinas e vacinação no contexto do combate à resistência aos antimicrobianos” será conduzida pelo Prof. Thiago Mares Guia, vice-presidente executivo da Bionovis e fundador da Cell Protect.

No Brasil, o cenário exige atenção redobrada. Com histórico de prescrição excessiva e uso indiscriminado de antibióticos, agravado pela automedicação, o país busca no fortalecimento do Programa Nacional de Imunizações (PNI) um escudo para o sistema de saúde. Durante surtos de gripe ou dengue, por exemplo, o uso inadequado de antibióticos para tratar infecções não bacterianas tende a impulsionar a resistência de forma desnecessária; a vacinação reduz internações e previne coinfecções bacterianas que costumam acometer pacientes com baixa imunidade após viroses. O primeiro Relatório Mundial de Vigilância da Resistência aos Antibióticos, divulgado pela OMS em 2025, já apontava aumento de mais de 40% na resistência bacteriana entre 2018 e 2023.

“A agenda da OMS para 2026 coloca a resistência antimicrobiana e as doenças não transmissíveis no centro do debate global em saúde, em sintonia com a Immunization Agenda 2030. A vacinação é parte da resposta em ambas as frentes. O simpósio é uma forma da Academia contribuir, no Brasil, para esse debate e reforçar que atualizar a caderneta de vacinação, em todas as faixas etárias, deixou de ser apenas um ato de proteção individual: passou a ser também um pilar do enfrentamento da RAM”, afirma o Acad. Lauro D. Moretto, coordenador da Comissão Organizadora do simpósio.

A abordagem internacional para a RAM, conhecida como “Uma Só Saúde”, integra saúde humana, animal e ambiental, reconhecendo que o uso de antimicrobianos em diferentes setores e fatores como mudanças climáticas, saneamento e alimentação afetam o ecossistema microbiano como um todo. O Brasil participa de redes internacionais de vigilância e mantém planos nacionais de prevenção e controle da resistência microbiana, conduzidos pela Anvisa em parceria com o Ministério da Saúde e a Opas/OMS.

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