Ariosto Mesquita (*)
O 34º longa-metragem de Steven Spielberg, cineasta que completa 80 anos no próximo mês de dezembro, não poderia chegar em hora tão coincidente. O mundo em guerras, “loucos” no poder, IA’s construindo (ou desconstruindo) no lugar do homem, extremismo e fake news assumidas como verdades.
É exatamente em um cenário muito semelhante a este que navega o filme “Dia D” (Disclosure Day), uma obra que, em seus contornos e pontuais situações, é mais real do que ficcional, como o próprio diretor considera.
Um funcionário da empresa privada Wardex, ligada a fenômenos anômalos não identificados, resolve desertar, carregando contigo arquivos com segredos que são a gênesis da organização. Mais do que isso, ameaça revelar tudo ao mundo e passa a ser considerado um traidor pela corporação. De quebra, o sujeito ainda levou com ele 12 pessoas. Apóstolos?
O primeiro dilema é ético. Você quebraria a confidencialidade que se espera em uma relação de trabalho, tornando pública estas informações?
Superada (ou não) esta questão, com a decisão pela revelação, de que maneira isso será feito? Quem revela? Através de que canais? Mídias convencionais, Youtube, streaming, redes sociais?
Em “Dia D”, a opção de Spielberg e do roteirista David Koepp considerou a convergência de mídias, uma teia consolidada, a estrutura de checagem e a reputação do jornalismo televisivo, para ancorar este processo. A partir dele, replicar foi uma consequência natural e boa parte dos cidadãos acompanhou pelo smartphone. Em um determinado momento, antecedendo uma entrada em rede, é possível ouvir algo como: “informação checada; não se trata de IA ou fake news. Fonte segura”.
Este aspecto reputacional evidentemente não é a tônica do filme. Talvez tão somente justifique uma opção do roteiro. Mas é suficiente para uma leitura paralela que faço embalado por se tratar da profissão que abracei. O jornalismo em “Dia D”, mantém sua essência, ao mesmo tempo em que trabalha, aparentemente sem grandes conflitos, dentro de uma enorme rede agregadora graças às novas tecnologias/canais e acessos popularizados nos tempos atuais.
E meio a um caos individualista, uma palavra parece unir a comunicação:
“Escutem”.
OBS 1: Boas interpretações de Eve Hewson (filha do cantor Bono), Emily Blunt, Josh O’Connor e Colman Domingo. Já o “vilão” de Colin Firth, um tanto caricato.
OBS 2: ilustração gerada por IA
(*) Jornalista, pós-graduado em Marketing, mestre em Produção e Gestão Agroindustrial e cinéfilo – ariostomesquita@gmail.com



