Setembro Amarelo: estresse compromete desempenho de 54,1% dos médicos

Mais da metade dos médicos brasileiros participantes do panorama “Qualidade de Vida dos Médicos”, realizado pela Afya em 2025, afirma que os níveis de estresse comprometem muito o desempenho no trabalho. O dado ganha relevância durante o Setembro Amarelo, campanha nacional de conscientização sobre a prevenção do suicídio e a promoção da saúde mental. O levantamento ouviu mais de 2 mil médicos e aponta que os transtornos mentais mais diagnosticados são ansiedade, depressão e burnout.

Segundo o estudo, 37,2% dos médicos possuem diagnóstico de ansiedade, enquanto 25,7% têm diagnóstico de depressão. No caso da síndrome de burnout, foi identificada uma diferença entre diagnóstico e sintomas: 5,7% dos profissionais declararam possuir diagnóstico da condição, enquanto 32,6% apresentam sintomas, mas não fazem acompanhamento profissional.

O levantamento também relaciona o estresse às condições de exercício da medicina. Entre os fatores apontados pelos profissionais estão a elevada demanda de trabalho, o descontentamento com o sistema de saúde, as dificuldades enfrentadas no cotidiano profissional e as poucas recompensas profissionais.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética (Anadem), Raul Canal, a discussão sobre a saúde mental dos médicos precisa considerar os efeitos do ambiente profissional sobre a qualidade do atendimento. “Não se trata apenas de preservar o bem-estar do médico, mas de reconhecer que jornadas excessivas, falta de descanso e pressão contínua podem afetar a capacidade de tomada de decisão e a qualidade da assistência. A saúde mental do profissional faz parte da própria segurança do paciente”, afirma Canal.

Nos últimos meses, o Conselho Federal de Medicina (CFM) retomou discussões entre suas comissões para enfrentar os desafios relacionados à saúde mental dos médicos, diante de um cenário que o próprio órgão classificou como preocupante em relação aos índices de suicídio entre profissionais. Um estudo realizado com 4.148 médicos brasileiros, publicado originalmente na Brazilian Journal of Psychiatry, identificou que 8,8% já haviam apresentado planos de suicídio e 3,2% relataram tentativas. A pesquisa também encontrou uma associação entre esses episódios e fatores relacionados ao trabalho, como exaustão emocional e frustração profissional.

Para Canal, também advogado com especialização em direito médico, o enfrentamento do problema exige medidas institucionais capazes de reduzir fatores de risco no ambiente de trabalho. “É importante evitar que a saúde mental seja tratada apenas como uma responsabilidade do próprio profissional. As instituições também precisam avaliar como a organização do trabalho influencia esse cenário e criar mecanismos de prevenção e suporte. Quando existe uma estrutura capaz de identificar sinais de sofrimento, oferecer assistência e garantir condições adequadas para o exercício da medicina, a proteção alcança o profissional e, também, o paciente”, conclui.

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