Com 140 páginas, obra assinada pela escritora Lenilde Ramos reúne mais de 500 fotografias e preserva a memória de uma instituição que rompeu as barreiras do preconceito
UNA Assessori – Existem histórias que não podem ser esquecidas. Histórias de pessoas afastadas do convívio social, marcadas pelo preconceito e que, mesmo diante da exclusão, encontraram um lugar para recomeçar. Há também histórias de quem escolheu não desviar o olhar, transformando a dor em trabalho, o abandono em acolhimento e a esperança em um legado que atravessa gerações. A trajetória do Hospital São Julião, em Campo Grande, é uma dessas histórias, agora eternizada em um álbum que celebra os 85 anos da instituição.
Com 140 páginas, a publicação assinada pela escritora Lenilde Ramos reúne 530 fotografias que reconstroem a trajetória do hospital, desde suas origens como leprosário, até sua transformação em um centro de referência em saúde, reconhecido pela dignidade oferecida aos pacientes. Mais do que registrar datas, personagens e acontecimentos, o álbum revela como o trabalho de voluntários, profissionais de saúde e colaboradores, construiu uma nova realidade.
85 anos de memória – A concretização do projeto foi resultado de décadas de pesquisa, organização de documentos e construção de uma narrativa capaz de revelar a dimensão humana dessa trajetória. A produção efetiva levou cerca de um ano e meio, mas a preparação começou muito antes. Lenilde pesquisou um acervo de 4 mil fotografias e documentos, incluindo o material que ela trouxe da Itália, para reconstruir episódios e preservar informações que poderiam se perder com o tempo.
“Há mais de 30 anos venho estruturando a melhor forma de contar a história do São Julião. O pioneiro nesse caminho foi Lino Villachá (1938-1994), paciente hanseniano, poeta e cronista, que escreveu cinco livros relatando suas memórias, revelando personagens e registrando o trabalho que transformou a estrutura física e a vida de tantas pessoas. Convivi com ele durante 25 anos, mergulhei em seus escritos e hoje dou continuidade à sua obra”, relata Lenilde.
Organizada em uma linha do tempo, o Álbum conduz o leitor por diferentes períodos, desde a inauguração do ‘leprosário’, à chegada de Irmã Silvia Vecellio, na década de 1960, à vinda dos voluntários italianos, ao nascimento da Associação Beneficente de Auxílio e Recuperação dos Hansenianos, a evolução da estrutura hospitalar e a revolução que se operou no cenário da hanseníase em Mato Grosso do Sul.
Irmã Silvia, a mulher que mudou destinos – O fio condutor desse álbum passa inevitavelmente pela história de Irmã Silvia Vecellio. A religiosa italiana, hoje com 95 anos, dedicou seis décadas de sua vida ao Hospital São Julião. Quando conheceu o hospital, em 1964, encontrou uma realidade de segregação e abandono. A mudança exigia muito mais que cuidados médicos: era necessário reconstruir estruturas, mobilizar profissionais, conquistar apoio e, principalmente, modificar a forma como aqueles pacientes eram tratados.
“Irmã Silvia sempre atuou com pulso firme em um lugar classificado como um “depósito de doentes”. Ela trouxe médicos, profissionais e trabalhadores de diversas áreas para transformar aquela realidade, sempre com pensamento empreendedor, nunca sob o aspecto meramente assistencial. Foi uma grande gestora que fez tudo em silêncio, sem personalismo, por isso, esse álbum também é uma homenagem a ela”, destaca a autora.
Da autora ao hospital: várias histórias – A relação de Lenilde Ramos com o Hospital São Julião vai muito além da pesquisa documental. Sua própria vida se entrelaça com a trajetória da instituição, tornando o trabalho de resgate histórico também uma forma de revisitar suas origens. Lenilde estudou no Colégio Auxiliadora e Irmã Silvia foi sua professora. Aos domingos, a mestra a levava em visitas à periferia e, daí em diante, a aluna teve o privilégio de acompanhar a construção deste grande sonho.
Em 1970, ao completar 18 anos, a discípula se apresentou como voluntária no projeto de reconstrução do “leprosário” e, ao longo de 56 anos, participou desse trabalho em diversas funções: professora, secretária e animadora cultural. Tornou-se jornalista e passou a recolher, com mais interesse, a memória de pacientes e trabalhadores do hospital. Após a morte de Lino Villachá, em 1994, tomou para si a responsabilidade de prosseguir com esse registro. Seu primeiro livro, lançado em 2011, “História sem Nome”, é uma tentativa de registrar a realidade da hanseníase e a transformação do hospital.
A história do São Julião não é contada somente a partir de grandes acontecimentos ou de personagens que ocuparam posições de liderança. Ela também é construída pelas vozes de pacientes, voluntários e profissionais que compartilharam a rotina da instituição e deixaram suas marcas.
Do isolamento à referência em saúde – Resgatar a memória do Hospital São Julião significa olhar para um passado que não pode ser apagado. Ao longo das décadas, o hospital ampliou sua atuação, fortaleceu sua estrutura e passou a oferecer atendimento especializado em diferentes áreas.
O antigo ‘leprosário’ deu lugar a um hospital aberto a mais de vinte especialidades que atendem todo o Mato Grosso do Sul, com um saldo de 574 mil procedimentos realizados ao longo de 2025. É referência em hanseníase e oftalmologia, sendo responsável por 92,55% das cirurgias nesta área, realizadas no Estado. Atua com destaque nas Residências de Clínica Médica e Oftalmologia, classificada entre as cinco primeiras pela Sociedade Brasileira de Oftalmologia.
Ao longo de sua história, o São Julião procura abranger suas diversas potencialidades, por estar em uma área de 240 hectares. A principal delas é o meio ambiente que, hoje, faz parte do organograma da instituição e a coloca como o primeiro Hospital Lixo Zero do Brasil e da América Latina. O São Julião desvia do aterro sanitário 86% de seus resíduos sólidos, processa-os como material reciclado e produz matéria orgânica utilizada em sua vasta área verde e projetos de reflorestamento.
“O conteúdo deste álbum histórico mostra o fruto da vocação missionária de Irmã Silvia Vecellio, a tenacidade com que ela e seus fiéis aliados lutaram por essa obra, a revolução que esse trabalho operou, inicialmente com o tratamento da hanseníase e hoje, com a assistência médica em geral. E, o mais importante, sem perder o espírito humanitário que sempre fez parte dessa trajetória”, destaca o presidente do Hospital São Julião, Carlos Melke.
Produção: Pesquisa e Redação: Lenilde Ramos, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras – Design Gráfico: Marília Leite, membro do Instituto Histórico e Geográfico de MS – Tratamento de imagens e Fechamento de arquivos : Lennon Godoy, designer gráfico – Apoio à pesquisa e material de arquivo: Roberto Pellizzer, historiador e responsável pelo Setor de Memória do Hospital São Julião.Como adquirir – O álbum está à venda na Livraria Leitura, no Shopping Campo Grande, com a renda revertida para o hospital.



