Protege, 66 Salas Lilás e novos protocolos ampliam a resposta do Estado: “Temos que continuar trabalhando para aperfeiçoar essa dinâmica”, afirma Riedel
Quando o filho mais novo tinha cerca de nove meses, D.B.L. foi estrangulada pelo marido enquanto estava deitada na cama. Depois de anos de humilhações, agressões psicológicas e violência patrimonial, aquele ataque físico mais grave mostrou que ela e os quatro filhos já não estavam seguros dentro de casa.
“Esse episódio foi um marco na minha vida e me fez compreender que eu precisava buscar ajuda para proteger a mim e aos meus filhos”, relata.
A primeira porta encontrada foi a organização não governamental Aciesp, no bairro Aero Rancho, em Campo Grande. A equipe a acolheu, explicou quais caminhos poderia seguir e a orientou a procurar a Casa da Mulher Brasileira.
A trajetória de D.B.L. ajuda a mostrar por que o enfrentamento à violência doméstica exige mais do que o registro de uma ocorrência. Uma mulher que decide deixar o agressor pode precisar, ao mesmo tempo, de proteção policial, orientação jurídica, atendimento psicológico, pensão alimentícia, assistência para os filhos e condições econômicas para reorganizar a própria vida.
Foi diante dessa realidade que o governador Eduardo Riedel (Progressistas) – candidato aprovado em convenção à reeleição – instituiu, em junho de 2025, o Programa Estadual de Prevenção e Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, o Protege.
A estratégia articula segurança pública, educação, cidadania, assistência social e desenvolvimento econômico. A proposta é substituir iniciativas isoladas por uma rede capaz de atuar desde a prevenção e a identificação do risco até o acolhimento, a responsabilização do agressor e a reconstrução da autonomia da vítima.
“A rede cresceu, mas a permanência dos feminicídios no nosso Estado mostra que ainda existem lacunas entre a identificação do risco, o pedido de ajuda e a proteção efetiva. Temos que continuar trabalhando para aperfeiçoar essa dinâmica”, afirma Riedel.
Um lugar para ser ouvida e reconstruir a vida
D.B.L. foi casada durante 14 anos e teve quatro filhos. Segundo ela, os primeiros dez anos do relacionamento transcorreram sem os episódios de violência que marcariam a fase seguinte. Depois do nascimento do caçula, porém, o comportamento do marido começou a mudar.
“Passei a sofrer agressões psicológicas, violência patrimonial e constantes humilhações. Com o passar do tempo, a situação foi se agravando”, conta.
Após o estrangulamento, a orientação recebida na Aciesp levou D.B.L. à Casa da Mulher Brasileira, onde encontrou atendimento psicológico e jurídico e apoio para enfrentar os procedimentos necessários à separação.
“Foi por meio dessa orientação que conheci a Casa da Mulher Brasileira, onde recebi todo o suporte necessário. Fui acompanhada por profissionais das áreas psicológica e jurídica, recebi aconselhamento e auxílio em todas as questões burocráticas, como o processo de divórcio, pensão alimentícia e atendimento com advogado”, relata.
Na época, os filhos ainda eram pequenos. Enquanto a mãe resolvia documentos e recebia orientação, as crianças podiam permanecer na brinquedoteca da unidade.
“Isso foi muito importante, pois me permitiu viver aquele processo sem que meus filhos presenciassem toda a minha dor”, afirma.
O acolhimento oferecido ajudou D.B.L. a encontrar forças para reivindicar os próprios direitos e os dos filhos.
“Na Casa da Mulher Brasileira fui acolhida, ouvida, respeitada e assistida em todos os momentos. Mais do que oferecer serviços, aquele lugar me tratou com empatia, dignidade e humanidade”, diz.
“Encontrei profissionais que realmente se preocupavam com o bem-estar das mulheres e que me ajudaram a reconstruir minha vida em um dos momentos mais difíceis que já enfrentei.”
“A experiência revela como a estrutura de proteção interfere em decisões que, vistas de fora, podem parecer simples” explica o governador. Deixar o agressor não depende apenas de coragem. Pode envolver medo de novas ameaças, falta de renda, filhos pequenos, ausência de moradia, isolamento e insegurança sobre os procedimentos legais.
Violência começa antes do crime mais grave
Mato Grosso do Sul registrou 128 casos de feminicídio consumado ou tentado em 2025. Foram 39 mulheres mortas e outras 89 que sobreviveram aos ataques. No primeiro semestre de 2026, outras 18 mulheres já perderam a vida.
Por trás dessas ocorrências, muitas histórias começaram antes da agressão extrema. Controle sobre dinheiro e telefone, perseguição, isolamento, ameaças, ciúme possessivo e ataques físicos progressivamente mais graves podem anteceder a tentativa de assassinato.
Para uma mulher ameaçada dentro de casa, a diferença pode estar na rapidez com que consegue atendimento, na forma como é recebida e na possibilidade de procurar ajuda sem viajar para outra cidade.
Também está na existência de condições para sair da relação quando o agressor controla a renda, a moradia e o vínculo com os filhos.
O Protege parte do princípio de que a violência contra a mulher não cabe apenas dentro de uma delegacia. A prevenção envolve escolas e comunidades; a interrupção do risco exige polícia e Justiça; e a reconstrução da vida depende também de assistência, emprego, renda e autonomia.
Salas Lilás ampliam atendimento no interior

Uma das faces mais visíveis da expansão da rede são as Salas Lilás, ambientes reservados dentro de delegacias para atender mulheres, crianças e adolescentes vítimas de violência.
Com a abertura da unidade de Corumbá, em maio de 2026, Mato Grosso do Sul chegou a 66 salas em funcionamento.
Os espaços procuram evitar que a vítima precise relatar a agressão em balcões movimentados, diante de desconhecidos ou em ambientes que aumentem o constrangimento.
“Privacidade, escuta adequada e encaminhamento para outros serviços são essenciais para reduzir a revitimização”, afirma Riedel.
A rede dispõe ainda de uma Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher na Casa da Mulher Brasileira, em Campo Grande, e de 12 Delegacias de Atendimento à Mulher no interior. Na Capital, a unidade especializada funciona 24 horas.
A ampliação física, contudo, precisa ser acompanhada pela formação das equipes. O Plano Estadual de Segurança Pública para o Combate à Violência contra a Mulher, publicado em 2026, registra aproximadamente 168 policiais civis atuando nas delegacias e nos plantões do interior.
Desse total, 26 possuem capacitação específica para atender ocorrências de violência doméstica. As unidades também contam com 26 viaturas compartilhadas com outros tipos de ocorrência.
O tempo entre a decisão e a proteção
A medida protetiva pode determinar o afastamento do agressor, proibir contatos e restringir o porte de armas.
No ano passado, o Governo do Estado e o Tribunal de Justiça implantaram o IntegraJus Mulher. O sistema substituiu procedimentos manuais pela comunicação eletrônica entre as instituições.
Segundo o balanço apresentado no lançamento, as decisões judiciais passaram a chegar às forças de segurança em até 48 horas em quase todos os casos processados pela plataforma.
“A tecnologia reduz o intervalo entre a decisão judicial e o conhecimento da medida pela polícia. Para uma mulher ameaçada, esse tempo pode ser decisivo”, reflete o governador.
Existe, porém, uma barreira anterior ao funcionamento do sistema. Nos feminicídios consumados e tentados analisados em 2025, 91,5% das vítimas não possuíam medida protetiva.
Parte das mulheres não procura a rede, busca socorro quando a violência já alcançou um estágio grave ou ainda não reconhece os comportamentos do agressor como sinais de risco.
Polícia passa a acompanhar casos mais graves
Para a delegada de Polícia Priscilla Anuda Quarti, assessora especializada do Núcleo Institucional de Cidadania, o enfrentamento ao feminicídio exige uma leitura cuidadosa dos indicadores.
“Cada feminicídio representa uma tragédia que exige reflexão e aprimoramento constante das políticas públicas.”
Nos últimos anos, o Núcleo Institucional de Cidadania coordenou medidas destinadas a integrar o atendimento e fortalecer a prevenção. Entre elas está o Protocolo Institucional nº 256/2026, que padronizou a atuação da Polícia Civil nos casos de violência doméstica e familiar.
Uma das principais mudanças é a determinação de que o trabalho policial não termine com o registro da ocorrência.
O protocolo prevê o monitoramento dos casos considerados de maior risco e dos autores reincidentes. Também foram desenvolvidas ferramentas no sistema policial para acompanhar ocorrências, realizar busca ativa de vítimas em situação grave e produzir informações que orientem o trabalho das equipes.
A mudança procura levar a Polícia Civil de uma atuação apenas reativa para uma resposta baseada na avaliação do risco, concentrando esforços nas situações com maior possibilidade de evoluir para violência letal.
Sinais que exigem atenção
Priscilla Quarti observa que a decisão de denunciar é atravessada por fatores que não podem ser ignorados.
“Muitas mulheres permanecem em situação de violência por medo das ameaças, dependência financeira, existência de filhos em comum, isolamento imposto pelo agressor, vergonha, culpa ou esperança de que o comportamento violento cesse”, explica.
Segundo a delegada, o feminicídio costuma ser precedido por comportamentos que sinalizam o agravamento do risco.
Entre eles estão ameaças de morte, tentativas de estrangulamento ou sufocamento, perseguição, controle excessivo da rotina, ciúme possessivo, agressões cada vez mais frequentes, descumprimento de medidas protetivas e acesso do agressor a armas de fogo.
Também elevam o risco o histórico de violência doméstica, a reincidência e o término recente da relação.
O estrangulamento sofrido por D.B.L., por exemplo, foi o episódio que a fez compreender que precisava retirar a si mesma e aos filhos daquela situação.
Quanto mais cedo esses sinais são identificados, maiores são as possibilidades de intervenção.
“A Polícia Civil passou a adotar uma atuação orientada pela avaliação do risco, priorizando o acompanhamento das vítimas em situação mais grave e dos autores reincidentes”, afirma Priscilla.
“Assim, o trabalho policial deixa de ser apenas reativo e passa a ser preventivo, buscando interromper a escalada da violência antes que ela resulte em um feminicídio.”
A delegada destaca ainda que familiares, vizinhos e profissionais das áreas de saúde, educação e assistência social podem perceber sinais precoces, estimular a busca por ajuda e contribuir para salvar vidas.
Proteção precisa chegar além da delegacia
O Protege reconhece que denunciar não basta quando a mulher não possui renda, moradia ou uma rede de apoio para reorganizar a própria vida.
“Por isso, a resposta inclui empregabilidade, empreendedorismo, prevenção comunitária, educação e expansão dos serviços especializados”, afirma Riedel.
No ano passado, o Governo do Estado anunciou investimento de R$ 2,3 milhões para levar a metodologia dos Centros Especializados de Atendimento à Mulher, à Criança e ao Adolescente em Situação de Violência, os Ceamcas, a 12 municípios.
A expansão alcança Alcinópolis, Bataguassu, Brasilândia, Cassilândia, Costa Rica, Japorã, Mundo Novo, Pedro Gomes, Porto Murtinho, Selvíria, Sonora e Rio Brilhante.
Os centros devem oferecer atendimento psicossocial e articulação com os serviços locais.
A medida responde a uma dificuldade recorrente no interior. Para procurar ajuda, a vítima pode precisar pagar transporte, faltar ao trabalho e expor sua situação em cidades pequenas, onde as relações sociais são mais próximas.
O mesmo conjunto de ações apresentou a plataforma Vitória, criada para divulgar informações sobre tipos de violência, direitos e serviços disponíveis.
A efetividade da ferramenta dependerá da divulgação, da segurança de acesso para mulheres monitoradas pelo agressor e da existência de equipes capazes de responder às demandas encaminhadas.
Ao reunir diferentes secretarias, a gestão Riedel passou a tratar a violência contra a mulher como um problema de Estado.
“A proteção depende da polícia e da Justiça, mas também da escola que ensina a reconhecer relações abusivas, do serviço social que acolhe e da oportunidade de trabalho que reduz a dependência financeira”, pontua.
Uma corrente que não pode se romper
A rede ampliada oferece uma base para que mulheres encontrem diferentes portas de entrada: a delegacia, o serviço social, uma unidade de saúde, uma organização comunitária ou um centro especializado.
“O desafio é fazer com que esses pontos funcionem como uma corrente contínua, sem interrupções justamente quando a vítima decide pedir ajuda”, explica o governador.
No caso de D.B.L., a primeira orientação veio de uma organização localizada no próprio bairro. Dali, ela chegou à Casa da Mulher Brasileira, recebeu acompanhamento psicológico e jurídico e encontrou um espaço seguro também para os filhos.
O atendimento não apagou os anos de violência nem eliminou imediatamente os obstáculos do recomeço. Mas permitiu que ela entendesse seus direitos, enfrentasse o divórcio e a definição da pensão e começasse a reconstruir a própria vida.
Sua trajetória mostra por que a proteção precisa começar antes do ataque mais grave e continuar depois do registro policial.
Entre o primeiro pedido de ajuda e a segurança efetiva, nenhuma etapa pode falhar. Para uma mulher ameaçada, a rede só cumpre seu papel quando escuta, identifica o risco, age com rapidez e oferece condições concretas para que ela não precise voltar ao lugar de onde tentou escapar.



