Assembleia histórica reúne lideranças Terena, Kadiwéu e Guarani-Kaiowá de sete municípios e 15 aldeias para criar a COOPIMS, a Cooperativa dos Povos Indígenas de Mato Grosso do Sul Os povos indígenas de Mato Grosso do Sul passam a ter, a partir desta quinta-feira (24/09), uma ferramenta econômica feita por eles mesmos.
Às 14h, no auditório da Unidade Rua da Paz do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, ocorre a Assembleia Geral de Fundação, Eleição e Posse da Diretoria da Cooperativa dos Povos Indígenas de Mato Grosso do Sul (COOPIMS).
É a primeira cooperativa de alcance estadual pensada para reunir a produção, o conhecimento e a força de trabalho de diferentes povos originários do estado sob uma mesma organização, além da proteção cultural e do conhecimento e medicina tradicional indígena, inclusive através de Biotecnologia.
A assembleia foi convocada pelo Fórum dos Caciques de Mato Grosso do Sul (FOCAMS), por meio do Edital de Convocação nº 001/2026. Assinam o ato de fundação 37 lideranças indígenas, entre caciques, presidentes de associações, professores, agricultores, pecuaristas, artesãos e profissionais de nível superior.
O mapa dos fundadores mostra a amplitude do projeto. Ele começa no território Kadiwéu, em Porto Murtinho, na fronteira com o Paraguai e às margens do Pantanal. Passa pelas terras Terena de Taunay/Ipegue e Limão Verde, em Aquidauana, pela Terra Indígena Buriti, em Dois Irmãos do Buriti, e por Anastácio.
Chega às aldeias urbanas de Campo Grande e desce até o Cone Sul, nas aldeias Jaguapiru, em Dourados, e Te’ýikue, em Caarapó. Ao todo são sete municípios, seis terras indígenas e quinze aldeias e comunidades representadas: Água Bonita e Índio Forte, em Campo Grande; Ipegue, Lagoinha, Esperança, Arara Azul, Água Branca, Limão Verde, Córrego Seco e a comunidade Txane, em Aquidauana; Água Azul, em Dois Irmãos do Buriti; Córrego do Ouro e Alves de Barros, no território Kadiwéu; Jaguapiru, em Dourados; e Te’ýikue, em Caarapó. Também participam unidades produtivas Kadiwéu dedicadas à pecuária.
O peso dessa articulação fica mais claro diante dos números. Segundo o Censo 2022 do IBGE, Mato Grosso do Sul tem 116.346 indígenas, a terceira maior população indígena do Brasil. O contingente cresceu 51% em doze anos e está presente em todos os 79 municípios do estado. Três dos cinco municípios com maior população indígena de MS estão entre os fundadores da cooperativa: Campo Grande, primeira do ranking estadual com 18.439 indígenas.
Dourados, com 12.054, e Aquidauana, com 9.428. A Terra Indígena Dourados, com 13.473 moradores, é a sexta mais populosa do país. Apesar desse peso demográfico, a produção indígena ainda circula com pouca estrutura: sem escala, sem acesso regular ao crédito e às compras públicas, sem nota fiscal e sem canais próprios de comercialização.
O gado criado nas terras Kadiwéu, a agricultura familiar Terena, a cerâmica e o artesanato, os saberes sobre a biodiversidade do Cerrado e do Pantanal costumam chegar ao mercado por intermediários, que ficam com a maior parte do valor. A COOPIMS surge para mudar essa lógica.
Organizados em cooperativa, os povos indígenas ganham personalidade jurídica para vender em conjunto, participar de programas como o PAA e o PNAE, acessar linhas de financiamento, proteger coletivamente seus conhecimentos tradicionais e suas marcas e negociar de igual para igual com o poder público e o setor privado. Segundo os organizadores, a proposta é de etnodesenvolvimento: gerar renda sem romper com o modo de vida, a organização social e a relação de cada povo com o seu território.
A cooperativa foi desenhada para respeitar a autonomia e governança das comunidades e a diversidade cultural entre Terena, Kadiwéu e Guarani-Kaiowá, entre outras, e ao mesmo tempo dar a esses povos uma voz econômica única no estado. Autoridades federais, estaduais e municipais foram convidadas para a cerimônia.
O Conselho Municipal dos Direitos e Defesa dos Povos Indígenas de Campo Grande (CMDDI) acompanha e apoia a iniciativa, assim como o Instituto Cacique Enir Terena – ICET (através dos indígenas terena Maria Auxiliadora Bezerra – Presidente do ICET e Germano Coelho Ramos Rocha-Silva, Mestre em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia, responsável pela tecnologia social implantada e governança) e consultoria jurídica do Dr. Delso Silva Neves.
A iniciativa contou ainda com o apoio Institucional e de estrutura do Ministério Público Estadual do Mato Grosso do Sul, através do Promotor de Justiça Dr. Paulo César Zeni, titular da 67a Promotoria de Justiça, habitual patrono de causas na defesa dos Direitos Humanos ligadas aos povos originários no MS. Para o CMDDI e demais Instituições, a fundação da COOPIMS é um marco político e econômico, porque mostra que os povos indígenas de Mato Grosso do Sul estão prontos para dirigir o próprio desenvolvimento, com organização, legalidade e protagonismo.



