No Dia Mundial da Paralisia Cerebral, celebrado em 6 de outubro, o neurologista do Humap-UFMS, Dr. Gustavo Leopold Schutz Pereira, explica os principais sinais da condição, como é realizado o diagnóstico e quais são as possibilidades de acompanhamento e reabilitação.
A paralisia cerebral é caracterizada por alterações do sistema nervoso central que provocam dificuldades motoras. Essas alterações podem ou não estar acompanhadas de comprometimentos sensitivos, visuais e cognitivos e, em alguns casos, de crises convulsivas.
Uma das principais características da condição é que a lesão cerebral não é progressiva. O evento que provoca a lesão ocorre durante a gestação ou nos primeiros anos de vida e pode atingir diferentes regiões do cérebro.
“Quando a gente fala em paralisia cerebral, o principal são as alterações motoras”, explica Dr. Gustavo.
Essas alterações podem interferir no desenvolvimento de funções como andar, manipular objetos, escrever ou realizar tarefas que exigem movimentos mais complexos.
Sinais podem aparecer durante o desenvolvimento
As manifestações variam de acordo com a região cerebral afetada e podem ser percebidas durante o desenvolvimento da criança. Entre os sinais que podem levar à investigação estão dificuldades para andar, caminhar na ponta dos pés, andar com as pernas cruzadas ou utilizar mais um lado do corpo do que o outro.
Nos bebês, um dos sinais que merece atenção é a hipotonia, popularmente descrita como “bebê molinho”. Nesses casos, a criança pode apresentar dificuldade para sustentar a cabeça e o tronco ou manter a postura esperada para determinada fase do desenvolvimento.
“Em alguns bebês eles são muito molinhos, acabam não mantendo a postura do tronco, nem a postura da cabeça após um determinado tempo de maturação do organismo”, explica o neurologista.
A presença desses sinais não significa, necessariamente, que a criança tenha paralisia cerebral. A avaliação deve ser realizada por profissionais de saúde, considerando o desenvolvimento, o histórico e as características individuais de cada paciente.
Diagnóstico combina avaliação clínica e exames
Durante muito tempo, o diagnóstico da paralisia cerebral foi predominantemente clínico. Atualmente, a avaliação médica pode ser associada a exames que permitem identificar alterações estruturais no cérebro.
Em crianças pequenas, pode ser utilizado o ultrassom transfontanelar, realizado por meio da fontanela, conhecida popularmente como “moleira”. Em crianças maiores, a ressonância magnética de crânio é um dos principais exames para analisar a estrutura cerebral.
“O diagnóstico hoje consegue aliar o raciocínio clínico a alterações que mostram de forma objetiva quais são as alterações que o paciente está tendo no cérebro”, afirma Dr. Gustavo.
Histórico da gestação e do nascimento também é avaliado
Segundo o neurologista, a experiência acumulada nas últimas décadas ampliou o conhecimento sobre os fatores associados às lesões cerebrais que podem resultar em paralisia cerebral.
A condição é relativamente frequente na população pediátrica. De acordo com a estimativa apresentada pelo especialista, são aproximadamente dois a cinco casos a cada mil nascidos vivos.
O histórico da gestação, do parto e dos primeiros dias de vida pode fornecer informações importantes para a avaliação. Entre as situações que podem estar associadas estão episódios de falta de oxigenação do cérebro do bebê, prematuridade, determinados casos de icterícia e exposição a substâncias durante a gestação, além de outros eventos capazes de interferir no desenvolvimento cerebral.
A presença de um desses fatores, entretanto, não significa que a criança necessariamente desenvolverá paralisia cerebral. A avaliação depende do conjunto de informações clínicas de cada caso.
Acompanhamento multiprofissional amplia possibilidades de cuidado
Depois do diagnóstico, o acompanhamento multiprofissional é importante para atender às diferentes necessidades que podem surgir durante o desenvolvimento.
“O mais importante que a família deve ir atrás é o acompanhamento multiprofissional”, explica Dr. Gustavo.
Esse cuidado pode envolver profissionais como fisioterapeuta, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, neurologista, ortopedista e, em alguns casos, psicólogo.
A proposta é trabalhar as funções que podem ser desenvolvidas e, quando necessário, buscar adaptações que favoreçam a autonomia e a capacidade funcional da criança.
“Dentro do possível, melhorar o que pode ser melhorado e, no que não pode ser melhorado, realizar adaptações que possam melhorar a capacidade funcional dela”, afirma.
Fisioterapia e recursos tecnológicos podem favorecer a reabilitação
O estímulo motor é uma das principais estratégias utilizadas na reabilitação. A fisioterapia pode contribuir para o desenvolvimento das habilidades motoras e para a manutenção da funcionalidade.
“A gente trabalha isso com fisioterapia. Quanto mais fizer e quanto mais intensiva ela for, melhor”, explica o neurologista.
Um dos desafios é manter o interesse da criança em atividades que precisam ser realizadas várias vezes por semana durante períodos prolongados. Por isso, recursos tecnológicos podem ser utilizados para tornar determinadas atividades mais atrativas.
Videogames adaptados, por exemplo, podem ser incorporados às sessões de fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia, transformando alguns exercícios em atividades mais interativas.
“De forma adaptada, conseguem fazer com que se torne mais interessante a atividade para a criança, logo aumentando a adesão e melhorando o desfecho funcional”, explica Dr. Gustavo.
Espasticidade pode ser tratada
Algumas pessoas com paralisia cerebral podem desenvolver espasticidade, caracterizada pelo aumento persistente do tônus muscular. A alteração pode provocar rigidez, dificuldade de movimentação e mudanças na postura.
Além da fisioterapia e do alongamento, existem outras possibilidades terapêuticas, conforme a avaliação de cada paciente. Uma delas é a aplicação de toxina botulínica em músculos específicos, com o objetivo de reduzir temporariamente a atividade muscular excessiva.
Segundo o neurologista, esse recurso pode fazer parte do tratamento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), conforme indicação médica e disponibilidade na rede de atendimento.
O acompanhamento desde a infância permite avaliar precocemente as alterações e definir estratégias para preservar a funcionalidade e a qualidade de vida ao longo do desenvolvimento.
Paralisia cerebral não significa necessariamente deficiência intelectual
Um dos pontos destacados pelo neurologista é que a paralisia cerebral não está necessariamente associada à deficiência intelectual.
A condição afeta principalmente o desenvolvimento motor, mas o comprometimento intelectual não é obrigatório.
“Não é obrigatório, de forma alguma, que a deficiência motora seja acompanhada da deficiência intelectual”, afirma Dr. Gustavo.
Segundo ele, algumas pessoas podem apresentar principalmente dificuldades de locomoção ou de movimentos e, com tratamento adequado, alcançar significativa melhora funcional, sem prejuízo da capacidade de raciocínio ou do desempenho acadêmico.
“Esse é um preconceito que não deve ser alimentado. As pessoas que têm paralisia cerebral não necessariamente vão ter uma deficiência intelectual”, ressalta.
A compreensão das diferentes manifestações da condição é importante para evitar generalizações e reconhecer as capacidades individuais de cada pessoa.
Cada paciente apresenta necessidades diferentes
A localização e a extensão da lesão cerebral ajudam a explicar a variedade de manifestações da paralisia cerebral.
Algumas pessoas podem apresentar maior comprometimento dos movimentos dos pés e das pernas. Outras podem ter alterações nos movimentos das mãos, dificuldades relacionadas à postura ou comprometimento da musculatura responsável pela sustentação do tronco.
Alterações posturais, por exemplo, podem contribuir para desvios da coluna, como a escoliose. Já dificuldades nos movimentos das mãos podem interferir em atividades como escrever ou manipular objetos.
“Tudo isso é explicado pelos diferentes locais que podem estar as lesões”, afirma o neurologista.
Por isso, o acompanhamento deve considerar as características de cada paciente, com estratégias de tratamento e reabilitação definidas de acordo com suas necessidades e possibilidades funcionais.
O objetivo é que, ao longo do desenvolvimento, a criança alcance o máximo possível de sua capacidade funcional, considerando suas características e possibilidades individuais.



