Mortalidade materna em MS acende alerta para identificação de riscos e resposta rápida

Especialista explica que número de consultas, sozinho, não garante a identificação dos riscos e aponta a importância do encaminhamento adequado e do preparo das equipes para emergências

Fazer o pré-natal permite acompanhar a evolução da gestação, identificar fatores de risco e antecipar cuidados quando necessário. Mas, para que esse acompanhamento cumpra seu papel, não basta contabilizar consultas: é preciso que os riscos sejam reconhecidos, classificados e encaminhados adequadamente ao longo da assistência.

Um dado do Boletim Epidemiológico de Mortalidade Materna, Fetal e Infantil, divulgado em maio pela Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul (SES), chama atenção justamente para essa diferença. Em 2025, mais da metade das mulheres que morreram por causas maternas no Estado havia realizado sete ou mais consultas de pré-natal.

Para a médica obstetra Vanessa Chagas, o número não diminui a importância do acompanhamento. Ao contrário, mostra que também é necessário observar o que acontece durante essas consultas e depois que um risco é identificado.

“O grande desafio é avaliar a qualidade das consultas. Em tese, o número de consultas seria suficiente para identificar riscos. O que vemos, porém, é que muitas vezes esse risco não é classificado e, quando é, existe uma demora para que essa paciente chegue ao serviço terciário, de alto risco”, explica.

Na prática, isso significa que uma gestante pode estar frequentando regularmente o pré-natal e, ainda assim, ter um fator de risco que não foi identificado ou não chegar ao atendimento especializado no momento adequado.

Esse cuidado também não se encerra nas consultas. Complicações podem surgir ou se agravar durante a gestação, no parto e no período posterior, exigindo que a própria mulher, a família e as equipes de saúde consigam reconhecer mudanças importantes e agir rapidamente.

As quatro demoras

Ao investigar as mortes maternas, explica Vanessa, são observados diferentes pontos em que a assistência pode sofrer atrasos. São as chamadas quatro demoras.

A primeira acontece quando a mulher ou a família não reconhece que determinado sintoma pode indicar uma complicação. A segunda ocorre quando ela procura uma unidade de saúde, mas o problema não é identificado pela equipe. A terceira está no intervalo entre o diagnóstico ou a suspeita e a chegada ao serviço de referência. A quarta acontece já dentro do hospital, quando há demora no diagnóstico ou na definição da conduta.

“Essas demoras ajudam a entender onde a assistência pode falhar. A paciente precisa reconhecer que alguma coisa está diferente, a equipe precisa identificar o risco e, quando necessário, garantir que ela chegue ao serviço adequado”, explica.

Assim, o pré-natal é uma das etapas desse percurso, mas não funciona de forma isolada. A efetividade do acompanhamento depende também da continuidade do cuidado e da capacidade da rede de responder quando surge uma alteração.

Quais sinais merecem atenção

Entre as principais causas de mortalidade materna citadas pela obstetra estão as doenças hipertensivas, as hemorragias e a sepse. No caso da hipertensão, Vanessa destaca sinais como dor de cabeça, inchaço desproporcional, ganho rápido de peso, tontura e alterações na visão. Mudanças desse tipo não devem ser naturalizadas durante a gestação e precisam ser avaliadas por profissionais de saúde.

O histórico da mulher também traz informações importantes. Antecedentes pessoais ou familiares de hipertensão devem ser comunicados à equipe. Para o risco de hemorragia, histórico de sangramento em parto anterior, múltiplas cesarianas ou vários partos anteriores também precisam ser considerados.

“Cada patologia tem seus fatores de risco e seus sinais. A paciente e a família precisam receber informação para perceber quando alguma coisa está diferente e levar essas informações para a equipe de saúde”, afirma Vanessa.

Quando o risco vira emergência

Mesmo com prevenção e acompanhamento, há situações em que uma complicação evolui e exige atendimento imediato. Nesse momento, o tempo de resposta e a preparação da equipe ganham ainda mais importância.

Vanessa destaca que o reconhecimento de uma emergência obstétrica não depende apenas do médico. A paciente passa por diferentes profissionais ao longo do atendimento, e cada um deles pode identificar uma mudança importante.

“É o enfermeiro que faz a classificação de risco, é o técnico de enfermagem que afere a pressão e são vários profissionais acompanhando essa paciente. Essa avaliação precisa acontecer várias vezes ao longo do atendimento, e não apenas na admissão”, explica.

A preparação desses profissionais passa também pela qualificação contínua. Um exemplo é o OBCODE, curso oferecido pela CoreHelp para capacitar equipes no atendimento a emergências obstétricas. A formação aborda o reconhecimento rápido dos quadros, a organização da assistência e a atuação integrada dos profissionais em situações que exigem resposta imediata.

Para Denis Corrêa, instrutor da CoreHelp, treinar previamente permite que a equipe esteja mais preparada quando uma situação crítica acontece. “Em uma emergência obstétrica, cada profissional precisa saber reconhecer a gravidade da situação, entender seu papel e atuar de forma coordenada. O treinamento permite que a equipe pratique essa resposta antes de enfrentar um caso real”, afirma.

Vanessa ressalta que essa necessidade vale tanto para os serviços públicos quanto para os privados. Casos de morte materna e de near miss — quando a mulher enfrenta uma condição grave, mas sobrevive — também ocorrem na assistência privada.

“Como essas situações podem ser menos frequentes em alguns serviços, muitas vezes a equipe tem menos contato com esse tipo de emergência. É justamente por isso que treinamento e educação continuada fazem diferença”, afirma.

Tema em discussão na SOGOMAT

A mortalidade materna e o preparo das equipes também estão entre os temas discutidos pela Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de Mato Grosso do Sul, a SOGOMAT, em evento entre os dias 24 e 26 de setembro.

Segundo Vanessa, a proposta é levar atualização científica aos obstetras e aproximar o debate da realidade encontrada na assistência.

“A sociedade tem esse papel de levar conhecimento científico e atualização aos obstetras, além de mostrar como os treinamentos e a educação continuada podem fazer diferença na assistência”, conclui.

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