Fórum sobre agricultura familiar indígena reuniu diversos setores na Tecnofam

Evento contou com a presença do ministro de Estado dos Povos Indígenas Eloy Terena e da diretora de Inovação da Embrapa Ana Euler

O “Fórum de Governança Territorial e Etnodesenvolvimento na Agricultura Familiar de Mato Grosso do Sul” foi realizado no dia 10 de junho de 2026, no segundo dia da Tecnofam, na Embrapa Agropecuária Oeste (Dourados,MS). A abertura contou com apresentação cultural da Orquestra Indígena de Viola, da Aldeia Indígena Te’yikue (Caarapó, MS), com o “Momento Sagrado: Reza Tradicional Guarani Kaiowá” e a Dança das Mulheres Terena, da Aldeia Cachoeirinha (Miranda, MS).

O chefe-geral da Embrapa Agropecuária Oeste, Harley Nonato de Oliveira, fez a fala inicial e afirmou que a Tecnofam existe “para levar tecnologias, dignificar, dar diversas perspectivas e um olhar para um futuro melhor. A presença de todos só fortalece e reitera o nosso papel”. 

Para homenagear o ministro de Estado dos Povos Indígenas (MPI) Luiz Eloy Terena e a diretora da Funai Lucia Alberta Baré, presidente da Funai, que vieram prestigiar a Tecnofam e estavam no dispositivo de honra com outras autoridades, o chefe-geral juntamente com a diretora de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa, Ana Euler, entregaram certificado, uma cesta com produtos da agricultura familiar.

Também durante o Fórum foi realizada a assinatura do protocolo de intenções com a finalidade de implementar estação meteorológica no Território Indígena Cachoeirinha (Miranda, MS), para ser realizado o monitoramento das condições climáticas, o suporte à produção agrícola sustentável e o fortalecimento do etnodesenvolvimento local.

Assinaram o documento Luiz Eloy Terena, ministro do MPI; Lucia Alberta Baré, presidente da Funai; Ederval Antônio Terena, coordenador metodológico da Organização Coletivo Ambientalista Indígena de Ação para Natureza, Agroecologia e Sustentabilidade (Caianás), Ana Euler, diretora de Inovação da Embrapa; e Harley Nonato de Oliveira, chefe-geral da Embrapa Agropecuária Oeste.

Voz dos Territórios

Com diversas autoridades presentes (veja boxe no fim da notícia), o Fórum iniciou com o pronunciamento aberto a representantes e lideranças indígenas das comunidades locais.

Atanazio Correia Júnior, representando o cacique indígena Jaguapiru Vilmar Martins Machado da Silva, falou em nome das lideranças Bororó e da Jaguapiru. “A Embrapa é muito mais que uma empresa de pesquisa, é uma instituição social que tem fortalecido a produção agrícola a que não tem acesso a informações”, disse. 

Para Ederval Antônio Terena, coordenador metodológico da Organização Caianás, Mato Grosso do Sul vive um momento histórico. “Construímos o primeiro Plano de Gestão Territorial e Ambiental e é motivo de muita satisfação. Chegamos até aqui porque temos parceiros como a Embrapa Agropecuária Oeste que tem colaborado com nossos Territórios com transferência de tecnologia muito importantes voltados para agricultura familiar”, declarou.

Já a presidente da Funai, Lucia Alberta Baré, celebrou a inauguração da primeira estrutura própria da Fundação em Dourados, MS. “Isso dá força para nossos servidores atuarem. Essa conquista teve grande apoio do MPI”, relatou. Segundo ela, também foi estabelecido um acordo de cooperação técnica entre Funai e Embrapa com foco na produção de conhecimentos ancestrais e fortalecimento da cadeia de produção desde o cultivo à venda.

Tecnologias de fortalecimento 

Durante o evento, foram realizadas duas palestras. A primeira, ministrada pela diretora de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa, Ana Euler, com o tema “Plataforma Territorial de Iniciativas com Povos Indígenas – Fortalecimento de soberania, segurança alimentar e transição agroecológica”.

Segundo ela, a iniciativa tem com o objetivo estimular o desenvolvimento de projetos, iniciativas e ações de PD&I que reforcem a soberania e segurança alimentar e nutricional e a conservação da biodiversidade. A meta é contribuir com a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (PNSAN) na Agenda 2030 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). “A plataforma é para a resolução de problemas complexos. É um exemplo de que o conhecimento ancestral e a ciência caminham juntos”, destacou a diretora. 

Ela ainda enfatizou que as parcerias são o ponto crucial para que as ações sejam realizadas com efetividade. “Somente com parcerias robustas alcançaremos a verdadeira sustentabilidade e segurança alimentar e nutricional dos povos indígenas do Brasil”. A diretora destacou que 81 pesquisadores e analistas da Embrapa de 21 Unidades de Pesquisa, atuam no apoio e compartilhamento de ações com 45 povos indígenas.

Ana Euler também destacou a atuação da Embrapa Agropecuária Oeste nos TIs Jaguapiru e Bororó na Reserva Indígena de Dourados (RID): o projeto “Diagnóstico Participativo Etno-Sócio-Ambiental” (leia a matéria, clicando aqui) que levanta demandas produtivas com apoio da Funai e do governo estadual de MS por meio da Secretaria de Estado da Cidadania (SEC); a realização de oficinas sobre Sistemas Agroflorestais Biodiversos e Sisteminha Embrapa/UFU/Fapemig para moradores locais; apoio à produção agrícola com doação de mudas e fomento ao cultivo da mandioca de mesa; e foco no etnodesenvolvimento com a identificação de potencialidades na sexta maior reserva do Brasil. 

Os próximos passos com a participação de novas parcerias contemplam a recuperação ambiental, a produção agroecológica, a estruturação de viveiros de mudas de espécies nativas, a estrutura de comercialização, a inclusão socioprodutiva e digital e o fortalecimento cultural. “Fazemos aqui uma proposta para o Ministério [dos Povos Indígenas] para fortalecer a Plataforma para que seja um programa de estado”, solicitou. Ana Euler, que também é diretora da Anater, disse que a Ater Indígena já foi implementada no Amapá, Amazonas e Roraima e esforços estão sendo realizados para levar a Ater Indígena onde as próprias organizações indígenas possam prestar assistência às TIs”, finalizou.

Programa Ywy Ipuranguete

A segunda palestra foi proferida pelo ministro de Estado dos Povos Indígenas (MPI) Luiz Eloy Terena. “O Ministério foi criado para que tenham indígenas em espaços de decisão e construam políticas públicas para as comunidades. A parceria com Embrapa, Anater e Conab faz parte dessa estratégia”, destacou. 

De acordo com o ministro, nos próximos dias, um programa inédito chamado “Aldeia Produtiva”, será assinado entre MPI, Mapa, MDA, MDS, Ministério da Pesca e o Ministério do Desenvolvimento Regional com a finalidade de aportar recursos a iniciativas dos povos indígenas. “Quero contar com a Embrapa, Anater, a Conab e a Funai para gente chegar com esse aporte dentro das comunidades indígenas”. 

Ele relatou que, em Mato Grosso do Sul, existe um programa para formação de indígenas em agroecologia intercultural na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (Uems), apresentado por Leosmar Terena. “Vamos formar mais de cem técnicos indígenas em agroecologia para que possam voltar para suas comunidades e fomentar atividades de soberania alimentar”, contou o ministro. 

Quanto aos Planos de Gestão Territorial e Ambiental, Mato Grosso do Sul agora passa a contar com os seis primeiros PGTAs e, segundo Eloy Terena, eles estão se preparando para entregar mais. “É um documento político que garante o direito territorial e os projetos de vida das comunidades indígenas. E possibilitam aos indígenas acessarem outros recursos além dos recursos do MPI e da Funai”, explicou. 

De acordo com o ministro, são três componentes: consolidação de Terras Indígenas, produção sustentável para benefício econômico, social e ambiental e governança territorial. O projeto vai apoiar cinco biomas, cinco estados, 15 Territórios, nove povos indígenas em 6 milhões de hectares de Terras Indígenas. Em MS, foram incluídos 5 TIs.

Para os TIs em MS, o período de execução é de cinco anos, com recurso disponível de mais de R$ 5 milhões. “O Ywy Ipuranguete será desenvolvido de forma participativa, com escuta, diálogo e construção coletiva”, afirmou Terena. Segundo o ministro, as ações vão apoiar a elaboração de propostas de projetos comunitários dos PGTAs alinhados aos três componentes. 

Painéis técnicos e interação comunitária

Na parte da tarde, foram realizadas duas palestras e um painel final: “Política de Etnodesenvolvimento” ministrada por representante da Funai com o tema “Cadeias Produtivas da Sociobiodiversidade e Sustentabilidade na Agricultura Familiar Indígena”; Palestra de Contextualização e Diagnóstico Local” realizada pelo professor, biólogo e ativista ambiental Leosmar Terena, com o tema “Desafios na Implantação e os Caminhos para a Gestão dos 9 PGTAs no estado de Mato Grosso do Sul”; e o Painel Interativo e Roda de Conversa com a dinâmica “Espaço de Diálogo: Pontos Identificados e Próximos Passos para a implementação dos PGTAs de Mato Grosso do Sul”.

Tecnofam – O evento é realizado desde 2014, de dois em dois anos e se consolidou como a feira da agricultura familiar sul-mato-grossense. A Tecnofam é resultado da atuação conjunta da Embrapa e instituições parceiras na busca por soluções alinhadas às demandas regionais e tem como foco a difusão do conhecimento e de tecnologias inovadoras e de baixo custo para fortalecer a produção da agricultura e da agroindústria familiar. A construção coletiva da Tecnofam é o que sustenta sua relevância e crescimento ao longo de suas edições.

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