Especialista orienta sobre como agir nos primeiros minutos e explica por que receitas caseiras podem agravar lesões
Evelise Couto Basta um descuido perto da fogueira, um rojão aceso de forma errada ou uma criança circulando entre barracas de comida quente para que a festa junina termine no pronto-socorro. Em junho e julho, quando aumentam as celebrações com fogos de artifício, brasas, líquidos aquecidos e fogueiras, também cresce o alerta para acidentes com queimaduras.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, entre 2023 e 2024, aproximadamente 14 mil hospitalizações de crianças e adolescentes foram registradas no Sistema Único de Saúde (SUS) em decorrência de acidentes com queimaduras. Em média, são cerca de 20 internações por dia nessa faixa etária, com intensificação dos casos durante os festejos juninos.
A maioria das ocorrências está relacionada a queimaduras de segundo grau, que podem provocar bolhas e atingir principalmente mãos, punhos, braços, tronco, rosto e olhos. Crianças estão entre as vítimas mais vulneráveis, mas homens entre 15 e 50 anos também aparecem entre os grupos mais atingidos, especialmente em acidentes relacionados ao manuseio de fogos de artifício e à tentativa de acender fogueiras de forma insegura.
Segundo o médico Luiz Gustavo Orlandi, diretor da Core Help, o que acontece nos primeiros minutos depois da queimadura pode influenciar diretamente na evolução da lesão. A primeira medida é afastar a vítima da fonte de calor, sem colocar outras pessoas em risco. Depois, a orientação é resfriar a área atingida com água corrente limpa e fria, mas não gelada, por pelo menos cinco minutos. Quando possível, o ideal é manter o resfriamento por até vinte minutos.
“Esse é o cuidado inicial mais importante. A água corrente ajuda a reduzir a profundidade da queimadura, diminui a dor, reduz o risco de infecção e pode evitar complicações mais graves”, explica Orlandi.
A conduta segue princípios adotados em protocolos internacionais de atendimento ao trauma, como o ATLS, sigla em inglês para Advanced Trauma Life Support, ou Suporte Avançado de Vida no Trauma. A formação, certificada pelo American College of Surgeons e oferecida pela Core Help, orienta profissionais de saúde no atendimento inicial de vítimas de trauma, com foco na identificação rápida de riscos e na estabilização do paciente.
O médico reforça que apenas a área queimada deve ser resfriada. O restante do corpo precisa ser protegido com toalha ou manta, especialmente em crianças e idosos, para evitar hipotermia. Depois do resfriamento, a queimadura deve ser coberta com pano limpo e seco, sem apertar, até a avaliação médica, quando necessária.
O que parece cuidado pode piorar a lesão
Na tentativa de aliviar a dor, muitas pessoas ainda recorrem a soluções caseiras logo após o acidente. Manteiga, óleo de cozinha, pasta de dente, clara de ovo, pó de café, mel e pomadas sem prescrição estão entre as práticas mais comuns e também entre as mais arriscadas.
A intenção costuma ser proteger a pele, mas o efeito pode ser o contrário. Essas substâncias podem reter o calor na região queimada, contaminar a ferida, dificultar a avaliação médica e atrasar o cuidado realmente eficaz, que é o resfriamento com água corrente.
O gelo também não deve ser aplicado diretamente sobre a queimadura. Embora pareça uma forma rápida de aliviar a dor, ele pode causar dano adicional ao tecido já lesionado e agravar o quadro.

Outro cuidado importante envolve as bolhas. De acordo com Orlandi, quando estão íntegras, elas funcionam como uma proteção natural da pele contra infecções e novos traumas. Por isso, não devem ser estouradas em casa. A avaliação sobre a necessidade de removê-las deve ser feita por um profissional de saúde.
Nos casos em que a roupa fica grudada na pele, a orientação também é não puxar o tecido. O correto é cortar a roupa ao redor da área aderida, manter o tecido no lugar, cobrir com material limpo e buscar atendimento.
Algumas situações exigem avaliação imediata, mesmo quando a queimadura parece pequena. Lesões em rosto, mãos, pés, genitais, grandes articulações ou áreas extensas do corpo precisam de atenção médica. Também devem ser avaliadas com urgência queimaduras causadas por choque elétrico, produtos químicos, explosões ou associadas à inalação de fumaça.
Sinais como tosse persistente, rouquidão, fuligem ao redor do nariz ou da boca e dificuldade para respirar indicam risco de comprometimento das vias aéreas. Em acidentes com fogos de artifício, também é preciso observar possíveis lesões nos olhos, ouvidos e pulmões, além de traumas provocados pela explosão.
As queimaduras de terceiro grau estão entre as mais graves. Nesses casos, a pele pode ficar esbranquiçada, amarronzada, escurecida ou com aspecto semelhante a couro. Um sinal que merece atenção é a ausência de dor em uma lesão aparentemente grave, já que isso pode indicar destruição das terminações nervosas.
“Na dúvida, a recomendação é procurar atendimento. É sempre melhor avaliar e descartar gravidade do que subestimar uma lesão”, orienta o médico.
A prevenção começa antes da festa. Crianças devem permanecer longe de fogueiras, brasas e fogos de artifício, sempre acompanhadas por adultos. Para os adultos, a recomendação é evitar o uso de álcool, querosene ou outros produtos inflamáveis para acender fogueiras, manter distância segura dos fogos e não deixar brasas sem supervisão.
Quando o acidente acontece, a regra é agir rápido, mas sem improvisar. “Queimadura não combina com receita caseira. A conduta inicial deve ser simples e segura: afastar a vítima do calor, resfriar a área com água corrente, cobrir com pano limpo e procurar atendimento quando houver sinais de gravidade”, resume Orlandi.
Em casos de emergência, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência pode ser acionado pelo número 192, e o Corpo de Bombeiros pelo 193




