No Porto São Pedro, trajeto que podia consumir até três dias já é feito em poucas horas: Governo Riedel investe R$ 13,6 milhões em pista aérea para ampliar atendimento emergencial em uma das áreas mais isoladas do bioma
Durante anos, transportar uma boiada entre a Fazenda São Camilo e o Porto São Pedro, no Pantanal, podia significar até três dias de viagem. Parte do caminho era feita pelo rio e, em determinados trechos, homens e animais precisavam seguir dentro da água. O trabalhador rural Ézio Freitas de Almeida, de 48 anos, lembra que, além do esforço, havia riscos para os boiadeiros e perdas de animais pelo caminho.
“Antes, para sair da Fazenda São Camilo e chegar ao Porto São Pedro, a gente levava até três dias pelo rio, transportando o gado em lancha ou voadeira. Muitas vezes, era preciso parar no meio do caminho e seguir dentro da água, com muito sacrifício. Nós e os boiadeiros ainda corríamos o risco de ser ferroados por arraias. Já perdi muita boiada aqui”, conta.
Essa rotina começou a mudar com a implantação da estrada de acesso ao Porto São Pedro, concluída pelo Governo de Mato Grosso do Sul. Agora, a gestão do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, avança em outra frente: a construção de um aeródromo público para reduzir o isolamento da região e acelerar o deslocamento de equipes em situações de incêndio, emergência médica e segurança.
Localizado aos pés da Serra do Amolar, a cerca de 120 quilômetros de Corumbá por via fluvial, o aeródromo recebe investimento de aproximadamente R$ 13,6 milhões. A obra está sendo implantada em uma área doada ao Estado e tem entrega prevista para fevereiro de 2027, antes dos meses de maior risco de incêndios no Pantanal.
Quando cada hora de deslocamento faz diferença
O isolamento ajuda a dimensionar a importância da nova estrutura. No Porto São Pedro, rios e embarcações ainda são fundamentais para a mobilidade. Dependendo do sentido da viagem, o percurso de barco até Corumbá pode levar muitas horas.
Criado no Pantanal, Armando Arruda de Lacerda vive com a esposa, Marli Barros de Lacerda, na Fazenda São Luiz, no centro do Paiaguás, onde o casal mantém uma atividade turística há 20 anos. Eles doaram ao Estado a área onde o aeródromo está sendo construído.
Da fazenda até a barranca do rio são cerca de 50 quilômetros. Já a viagem entre o Porto São Pedro e Corumbá leva, em média, 27 horas rio acima e 12 horas no sentido contrário.
Armando avalia que a combinação entre a estrada e a futura pista aérea pode mudar não apenas a rotina de quem vive na região, mas também a capacidade de reação diante de emergências.
“O Pantanal é uma área altamente inflamável por causa da vegetação. Como o Porto São Pedro fica às margens do rio, essa região tem a possibilidade de absorver toda uma estrutura das forças de segurança pública para atuar no combate aos incêndios do grande Paiaguás e das áreas de reserva do Pantanal, além de prestar socorro à população pantaneira”, afirma.
Primeiro aeródromo inteiramente público da região
Com pista de aproximadamente mil metros, o aeródromo será o primeiro inteiramente público da região. A estrutura terá áreas de apoio para pousos, decolagens e manobras e deverá seguir os padrões de segurança da aviação civil e a fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).
Segundo o superintendente de Logística da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Seilog), Derick Machado, a localização foi definida justamente para reduzir o tempo de resposta em uma das áreas de acesso mais difícil do Pantanal.
“Uma das missões que o governador nos deu foi a de levar infraestrutura aonde o acesso ainda é o maior desafio. Esse dispositivo representa mais segurança, agilidade e presença do Estado no Pantanal, especialmente em situações emergenciais”, afirma.
Para Eduardo Riedel, a obra está relacionada a uma estratégia mais ampla de integração regional e expansão da infraestrutura aeroportuária de Mato Grosso do Sul.
“Estamos falando de uma das regiões mais bonitas e também uma das mais isoladas do nosso Estado. Quem vive, trabalha ou precisa de socorro neste local sabe o que significa depender de horas de deslocamento em um território onde cada minuto conta”, afirma o governador.
Segundo Riedel, o projeto faz parte do Plano Aeroviário estadual, que prevê a qualificação de aeroportos e aeródromos. No plano para o próximo mandato, estão previstas ainda a consolidação de corredores logísticos, a ampliação da malha aeroportuária, a integração entre diferentes modais e o incentivo à aviação regional.
Uma pista pensada também para enfrentar o fogo
A localização do aeródromo tem importância especial nos períodos mais secos do ano. Na região do Porto São Pedro, agosto e setembro concentram uma combinação de baixa umidade, temperaturas elevadas e ventos fortes, condições que aumentam o risco de propagação dos incêndios.
A nova pista deverá permitir o deslocamento mais rápido de brigadistas, equipamentos e insumos e apoiar a operação de aeronaves estaduais e federais empregadas no monitoramento e no combate ao fogo.
Para o tenente-coronel do Corpo de Bombeiros Militar e presidente do Comitê do Fogo, Leonardo Rodrigues Congro, ganhar tempo nas primeiras horas de uma ocorrência pode ser decisivo para evitar que um foco se transforme em incêndio de grandes proporções.
“Contar com um aeródromo público estadual homologado permitirá operar com eficiência máxima e segurança técnica as nossas aeronaves de combate e monitoramento, bem como integrar com precisão o apoio das aeronaves federais e do Estado de MS”, afirma.
O secretário da Semadesc, Artur Henrique Leite Falcette, destaca também a posição estratégica da pista, em frente à Serra do Amolar.
“Estamos erguendo a primeira infraestrutura aérea 100% pública da região. É um marco histórico para a logística de conservação e para a presença do Estado no coração do nosso Pantanal”, afirma.
Uma estrada que já encurtou distâncias
Enquanto o aeródromo está em construção, os efeitos da estrada já fazem parte da rotina de quem trabalha no Paiaguás. O Governo de Mato Grosso do Sul concluiu 23,417 quilômetros de acesso ao Porto São Pedro, em revestimento primário, com investimento superior a R$ 53 milhões.
Para Ézio, que transporta gado das fazendas São Camilo, Belém, São Miguel e Ipiranga, a diferença é medida sobretudo em tempo e esforço.
Hoje, segundo ele, um trecho que podia exigir dias de deslocamento pode ser vencido em cerca de duas horas de trator. No percurso mais amplo de trabalho, sair às cinco da manhã permite chegar ao porto por volta das cinco da tarde, no mesmo dia.
“Facilitou tudo, inclusive o transporte da boiada. O gado chega mais tranquilo, sem estresse e sem perdas”, relata.
A estrada também facilita a circulação de equipes de emergência e reduz parte das dificuldades enfrentadas pelo Corpo de Bombeiros para chegar à região durante incêndios.
“A satisfação do pessoal é total. Estamos chegando muito mais rápido e reduzimos bastante o tempo para embarcar o gado. Também é uma luta para o Corpo de Bombeiros chegar à nossa região e combater os incêndios. Agora, com a estrada e o aeródromo, o transporte será mais rápido e eficaz”, afirma Ézio.
Segundo ele, a intervenção não alterou o fluxo das águas no trecho em que vive e trabalha. “As águas continuam fluindo normalmente, sem que a estrada tenha mudado o curso ou prejudicado o nosso ambiente”, diz.
Infraestrutura adaptada a um território particular
Entre 2023 e 2025, cerca de R$ 478 milhões foram investidos na implantação de mais de 500 quilômetros de rodovias em revestimento primário no Pantanal, conforme os relatos de obras e infraestrutura do programa MS Ativo.
São vias destinadas a ampliar o acesso a áreas remotas, melhorar o transporte de pessoas e animais e criar corredores para o deslocamento de equipes e equipamentos durante situações de emergência.
No Porto São Pedro, estrada e aeródromo passam a fazer parte de uma mesma tentativa de enfrentar um problema histórico do Pantanal: vencer grandes distâncias sem ignorar as características de um território moldado pelas águas.
Para quem vive ali, a transformação aparece de maneira menos abstrata. Está no tempo economizado, no gado que chega com menos desgaste e na possibilidade de uma equipe de socorro alcançar mais rapidamente uma região onde, durante décadas, distância também significou vulnerabilidade.
Para Ézio, acostumado a jornadas de dias para vencer trajetos que hoje podem ser feitos em horas, essa mudança já pode ser medida na rotina. Quando o aeródromo estiver pronto, a expectativa é que a mesma redução de distâncias passe a valer também quando o que estiver em jogo não for apenas uma boiada, mas um incêndio, uma emergência ou uma vida.



