Ex-presidente da Amamsul, magistrado relembra quatro décadas de transformações no Judiciário e destaca humanidade, empatia e sensibilidade como valores essenciais para julgar
Neiba Ota – Quarenta anos separam as máquinas de escrever da Inteligência Artificial. No meio desse caminho estão milhares de processos, decisões, mudanças na Justiça e uma vida dedicada à Magistratura.
Nesta sexta-feira, 25 de setembro, o desembargador Marco André Nogueira Hanson completa quatro décadas de atuação na Magistratura de Mato Grosso do Sul. Ao olhar para trás, porém, sua primeira palavra não é sobre carreira. É gratidão.
“Lembro, em primeiro lugar, da gratidão que tenho a Deus por estar no exercício da sublime missão de julgar, e ao mesmo tempo feliz e realizado por fazer o que sempre pensei e almejei para minha vida”, afirma.
Hanson ingressou na Magistratura em 1986. O documento de sua assunção como juiz substituto em Dourados, preservado quatro décadas depois, ajuda a dimensionar uma trajetória que começava quando a realidade do Judiciário era muito diferente da atual. Marco André N. Hanson – Posse (…
Da máquina de escrever à Inteligência Artificial
Poucas gerações de magistrados acompanharam uma transformação tecnológica tão profunda no exercício da profissão.
Hanson lembra das máquinas de datilografia e das limitações enfrentadas antes da chegada das ferramentas que hoje fazem parte da rotina judicial.
“O tempo passou muito rápido e, de fato, passamos todos pelas máquinas de datilografia e pelas dificuldades que tínhamos diante da falta de tecnologias mais efetivas e próprias para facilitar o exercício da jurisdição.”
Agora, aos 40 anos de Magistratura, ele acompanha mais uma ruptura.
“Hoje o magistrado, além de distribuir Justiça, tem que dominar uma série de ferramentas. Agora mesmo estamos diante da Inteligência Artificial, uma das mais revolucionárias invenções da humanidade.”
A tecnologia mudou. Os processos mudaram. A maneira de trabalhar mudou. Para Hanson, entretanto, existem atributos que nenhuma ferramenta substitui.
“É necessário enxergar além dos autos”
Ao ser perguntado se faria tudo novamente, a resposta veio sem hesitação:
“Com certeza faria. Talvez um pouco mais com leveza.”
E é justamente ao explicar essa resposta que o desembargador revela o que considera essencial depois de quatro décadas julgando.
“Para exercer o privilégio de judicar é necessário ter muito além do conhecimento jurídico. Tal exercício requer humanidade, empatia, perspicácia e muita sensibilidade, para enxergar e entender além dos autos.”
Para ele, há ainda uma qualidade indispensável a quem escolhe a Magistratura:
“Ser juiz é ser resiliente e acreditar na esperança de que o dia de amanhã será sempre melhor.”
Uma história que também passa pela Amamsul
A trajetória de Marco André Hanson está ligada à própria história da Associação dos Magistrados de Mato Grosso do Sul.
O magistrado presidiu a Amamsul no biênio 2003/2004, além de ter exercido diferentes funções ao longo da carreira. Após 24 anos na primeira instância, foi promovido, em 2010, ao cargo de desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.
Atualmente, é diretor-geral da Escola Judicial do Estado de Mato Grosso do Sul (Ejud-MS) e integra a Terceira Câmara Cível, a Segunda Seção Cível e o Órgão Especial do TJMS.
Há uma simbologia particular nisso: depois de acompanhar tantas transformações da Justiça, Hanson participa hoje da formação e do desenvolvimento de novas gerações da Magistratura.
Dos registros manuscritos de 1986 às possibilidades abertas pela Inteligência Artificial em 2026, quatro décadas se passaram.
A melhor síntese dessa trajetória, segundo o magistrado, esteja justamente naquilo que, para ele, não deveria mudar com o tempo: humanidade, empatia, sensibilidade e esperança.
Há 40 anos, cinco nomes iniciavam essa história
O concurso da Magistratura homologado em 11 de setembro de 1986 teve cinco aprovados: Wilson Vieira Loubet, João Mathias Filho, Marco André Nogueira Hanson, Paulo Rodrigues e Sebastião Lino Simão.
Hoje, o desembargador Marco André Nogueira Hanson é o único que permanece na ativa. Os demais estão aposentados, depois de também dedicarem décadas à Magistratura.
Um deles, Paulo Rodrigues, representa os aposentados na atual diretoria da Amamsul.

“Ao celebrar esta data, a Associação dos Magistrados de Mato Grosso do Sul homenageia os cinco magistrados e uma geração que ajudou a construir a história da Justiça sul-mato-grossense”, destacou o presidente, juiz Mário José Esbalqueiro Júnior.



