Copa do Mundo: a ciência por trás da paixão que une bilhões de pessoas

Muito além do futebol, o maior evento esportivo do planeta mobiliza áreas do cérebro ligadas ao prazer, à ansiedade, à memória e ao sentimento de pertencimento. Psiquiatra do hospital explica como a neurociência ajuda a entender por que uma simples partida é capaz de provocar lágrimas, euforia, tensão e criar lembranças que permanecem por toda a vida.

Acada quatro anos, a Copa do Mundo deixa de ser apenas um torneio esportivo para se transformar em um fenômeno social e emocional global. Em diferentes países, rotinas são reorganizadas, ruas ganham cores, famílias se reúnem diante da televisão e até pessoas que não acompanham futebol passam a viver intensamente cada partida.

A sensação de que “algo maior está acontecendo” não é apenas cultural — ela também é biológica.

Segundo o psiquiatra Dr. Kleber Vargas, do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian ( Humap-UFMS | HU Brasil), a Copa do Mundo mobiliza diferentes sistemas do cérebro humano, ativando emoções, memória, recompensa e comportamento social de forma simultânea.

“Na Copa do Mundo, existe uma simbologia muito forte relacionada ao país e à cultura que pertencemos. É um evento com muita mídia, muita exposição, e isso faz com que as pessoas conversem, se interessem e compartilhem o assunto. Isso gera uma sensação de pertencimento.”

O pertencimento como base da experiência emocional

Para o especialista, o principal elemento que explica a intensidade emocional da Copa do Mundo é o sentimento de pertencimento.

O ser humano é, por natureza, um ser social. A necessidade de fazer parte de grupos sempre foi essencial para sobrevivência, proteção e desenvolvimento das sociedades.

Essa característica permanece ativa no cérebro contemporâneo.

Durante o Mundial, essa necessidade aparece de forma intensa: pessoas se identificam com a seleção, com o país e com o grupo que compartilha a mesma torcida.

Segundo o psiquiatra, essa identificação cria a sensação de participação direta nos resultados.

“A nossa torcida faz com que a gente se sinta vitorioso também, assim como na derrota, apesar de ser um sentimento de tristeza ou fracasso, ele também gera uma sensação de pertencimento a um grupo.”

Essa dinâmica explica expressões comuns como “nós ganhamos” ou “nós perdemos”, mesmo sem participação direta na partida.

O cérebro durante a Copa: emoção, controle e impulsos

Durante jogos decisivos, diferentes áreas do cérebro são ativadas simultaneamente.

O Dr. Kleber explica que a amígdala cerebral, estrutura relacionada às emoções, aumenta a percepção de risco, medo e intensidade emocional.

Ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal, responsável pelas funções executivas, tenta interpretar racionalmente o que está acontecendo e controlar impulsos.

“A amígdala aumenta a percepção emocional das situações, enquanto o córtex pré-frontal tenta fazer interpretações reais ou não reais sobre o que está acontecendo.”

Esse equilíbrio entre emoção e razão é o que faz o torcedor oscilar entre calma, tensão e euforia durante a partida.

Além disso, o sistema nervoso simpático entra em ação, liberando adrenalina.

Isso provoca respostas físicas como aumento da frequência cardíaca, elevação leve da pressão arterial, mudanças na respiração e aumento da atenção.

Adrenalina, dopamina e o corpo em estado de jogo

Durante momentos de alta tensão, o organismo reage como se estivesse diante de uma situação de risco.

O sistema nervoso simpático aumenta a liberação de adrenalina, preparando o corpo para uma resposta rápida.

“Aumenta a frequência cardíaca, aumenta a atenção e a própria percepção do corpo tendo essas reações também aumenta a ansiedade”, explica o psiquiatra.

Quando ocorre um gol decisivo ou uma virada emocionante, entra em cena outro neurotransmissor: a dopamina.

A dopamina está associada ao prazer e à recompensa.

Ela é liberada em situações de conquista, gerando sensação de alegria intensa.

Por isso, gols decisivos são frequentemente acompanhados de euforia coletiva, gritos, abraços e choro de felicidade.

A ansiedade dos pênaltis e a incerteza

Os pênaltis representam um dos momentos de maior tensão emocional da Copa do Mundo.

Segundo o psiquiatra, isso acontece principalmente pela incerteza.

O cérebro humano tende a reagir fortemente a situações imprevisíveis, nas quais o resultado não pode ser controlado.

“Aquilo aumenta a interpretação que a gente tem do risco, porque queremos ganhar, nos sentimos representados ali. Isso gera maior ativação da amígdala e do sistema nervoso simpático.”

Nesse momento, o corpo apresenta sinais claros de ansiedade: coração acelerado, respiração alterada, tensão muscular e aumento da percepção corporal dessas reações.

Essa percepção retroalimenta a ansiedade, intensificando ainda mais o estado emocional.

O choro durante os jogos

As emoções vividas durante a Copa podem ser tão intensas que algumas pessoas chegam a chorar.

O Dr. Kleber explica que isso ocorre devido à carga emocional envolvida na identificação com a seleção.

“Existe uma sensação de representatividade muito forte. As pessoas sentem como se estivessem realmente participando daquilo.”

O choro pode surgir tanto pela alegria quanto pela tristeza ou pelo alívio após momentos de grande tensão.

Sentimento coletivo e comportamento de grupo

A emoção durante a Copa do Mundo não é apenas individual — ela é coletiva.

Segundo o psiquiatra, emoções podem se espalhar entre grupos, criando comportamentos semelhantes em muitas pessoas ao mesmo tempo.

Esse fenômeno explica comemorações em massa, abraços entre desconhecidos e reações sincronizadas em estádios, ruas e casas.

Ao mesmo tempo, ele alerta que esse comportamento coletivo também pode ter efeitos negativos, como perda momentânea do senso crítico e comportamentos impulsivos ou agressivos em determinados contextos.

Superstições e pensamento mágico

Outro comportamento comum durante a Copa do Mundo são as superstições.

Vestir a mesma camisa, sentar no mesmo lugar ou repetir rituais antes dos jogos são exemplos frequentes.

O psiquiatra explica que isso ocorre porque o cérebro tenta lidar com situações imprevisíveis buscando algum tipo de controle simbólico.

Essas práticas não têm influência real no resultado, mas ajudam a reduzir a ansiedade.

Nós ganhamos”: identidade e autoestima

A identificação com a seleção é tão forte que muitas pessoas falam em primeira pessoa ao se referir aos jogos.

Essa linguagem reflete a incorporação simbólica do grupo à identidade individual.

Quando a seleção vence, isso pode gerar aumento da autoestima e sensação de orgulho coletivo.

Quando perde, pode gerar frustração e tristeza.

Neurotransmissores envolvidos na experiência da Copa

Segundo o psiquiatra, diferentes substâncias estão envolvidas nas emoções vividas durante os jogos:

  • Dopamina: relacionada ao prazer e à recompensa
  • Adrenalina: relacionada à ansiedade e ativação corporal
  • Serotonina: relacionada ao humor
  • Cortisol: relacionado ao estresse

Esses sistemas atuam simultaneamente durante a experiência emocional da Copa do Mundo.

A Copa e a saúde mental

O impacto da Copa do Mundo na saúde mental depende da forma como o evento é vivido.

Quando associado ao lazer, convivência social e momentos positivos, pode gerar bem-estar.

No entanto, também pode gerar estresse e ansiedade quando vivido de forma excessivamente intensa.

Memória afetiva e lembranças de Copas

A Copa do Mundo também está fortemente ligada à memória afetiva.

Eventos com grande carga emocional tendem a ser armazenados de forma mais duradoura no cérebro.

O psiquiatra relata experiências pessoais marcantes, como a Copa de 1982 e a de 1994, que permanecem vivas na memória até hoje.

Essas lembranças são reforçadas pelo contexto emocional em que ocorreram, muitas vezes vividas em família ou em grupo.

Emoção, cultura e comportamento humano

Mais do que um torneio esportivo, a Copa do Mundo é um fenômeno que envolve cultura, emoção, comportamento social e funcionamento cerebral.

Ela revela aspectos profundos da natureza humana: a necessidade de pertencimento, a busca por recompensa, a construção de memória e a forma como emoções individuais e coletivas se conectam.

Para o Dr. Kleber Vargas, compreender esse fenômeno é também compreender o próprio ser humano.

“A Copa do Mundo mobiliza emoções porque ativa estruturas fundamentais do nosso cérebro e da nossa vida social. É um evento que nos faz sentir parte de algo maior.”

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