Faculdade, intercâmbio, um primeiro negócio, a entrada no imóvel ou simplesmente a possibilidade de fazer escolhas com mais liberdade. Embora esses projetos estejam associados à vida adulta, o planejamento financeiro para viabilizá-los pode começar ainda na infância. Para pais de crianças e adolescentes, o tempo é um dos principais aliados na construção de uma reserva para o futuro.
Quanto mais cedo a família começa, maior é o período disponível para realizar aportes, aproveitar os juros compostos e distribuir o esforço financeiro ao longo dos anos. Uma criança que tem uma reserva iniciada ao nascer, por exemplo, pode contar com até 18 anos de planejamento antes de chegar à vida adulta.
“Não se trata de investir mais, mas de começar antes. O tempo permite que pequenos aportes, feitos de forma consistente, possam se transformar em recursos importantes para projetos que ainda estão distantes”, explica Álvaro Marques, CFP® (Certified Financial Planner) e consultor de investimentos da CredCrea.
Uma simulação apresentada pelo especialista ajuda a dimensionar esse efeito. Considerando uma taxa de 0,80% ao mês, aportes de R$ 200 mensais desde o nascimento até os 18 anos poderiam chegar a R$ 114,7 mil. Se o mesmo planejamento começasse aos nove anos, com R$ 400 mensais durante nove anos, o montante seria de R$ 68,2 mil, mesmo com o valor total investido ao longo do período sendo semelhante.

Uma simulação apresentada pelo especialista ajuda a dimensionar esse efeito. Considerando uma taxa de 0,80% ao mês, aportes de R$ 200 mensais desde o nascimento até os 18 anos poderiam chegar a R$ 114,7 mil. Se o mesmo planejamento começasse aos nove anos, com R$ 400 mensais durante nove anos, o montante seria de R$ 68,2 mil, mesmo com o valor total investido ao longo do período sendo semelhante.
A diferença está no prazo disponível para o dinheiro trabalhar. Em outra simulação, uma contribuição mensal de R$ 500 desde os primeiros anos de vida poderia alcançar R$ 286,9 mil ao final dos 18 anos, nas mesmas condições de rentabilidade. Os exemplos mostram que começar cedo pode ser tão relevante quanto o valor destinado mensalmente.
Planejamento muda conforme a idade e o objetivo
Não existe uma única estratégia financeira adequada para todas as famílias ou para todas as fases da infância. O primeiro passo é definir o que os pais pretendem viabilizar no futuro e em quanto tempo o dinheiro poderá ser necessário.
Para objetivos de curto prazo, como cursos, viagens educacionais, intercâmbios ou outras oportunidades que possam surgir durante a infância e a adolescência, a prioridade tende a ser a disponibilidade dos recursos. Nesse caso, investimentos com liquidez e menor exposição a oscilações podem ser a melhor escolha para preservar a reserva e permitir acesso ao dinheiro quando necessário.
Já projetos mais distantes, como uma graduação, uma pós-graduação, o capital inicial para empreender ou a entrada em um bem, seja este um veículo ou imóvel, permitem pensar em estratégias de médio e longo prazo. Com mais tempo pela frente, aportes periódicos podem ser combinados a investimentos que aproveitem melhor o período de acumulação.
A previdência privada também pode fazer parte desse planejamento, especialmente quando o objetivo é construir uma reserva de longo prazo. Além de permitir contribuições periódicas, pode contribuir para a disciplina de poupança e integrar o planejamento patrimonial e sucessório da família.
“Mais importante do que escolher um produto isoladamente é estabelecer uma estratégia coerente com o objetivo, o prazo e o perfil de cada família. Uma reserva para uma necessidade que pode surgir em dois anos, por exemplo, exige uma abordagem diferente daquela destinada a um projeto previsto para daqui a 15 ou 18 anos”, complementa Álvaro.
Na ponta do lápis
Segundo o consultor, ter uma visão realista dos custos ao longo da infância e da adolescência também é importante para dimensionar esse planejamento. Ele estima que criar um filho até os 18 anos no Brasil pode representar de R$ 239,6 mil a R$ 3,6 milhões, dependendo da faixa de renda familiar e do padrão de consumo.
Em um cenário básico, com escola pública, os gastos podem ficar entre R$ 150 mil e R$ 250 mil. Já em famílias que incluem creche e escola particular, a estimativa varia de R$ 350 mil a R$ 700 mil, enquanto um padrão de consumo mais elevado pode ultrapassar R$ 1 milhão. Esses valores consideram despesas como alimentação, saúde, educação, lazer e vestuário e ajudam a mostrar por que antecipar o planejamento pode fazer diferença na organização financeira da família.
O planejamento começa a partir das respostas
Ainda segundo o consultor Álvaro, antes de pensar em onde investir, os pais podem começar com algumas perguntas: como gostariam de ajudar o filho quando ele chegar à vida adulta? Existe um projeto que desejam viabilizar? Quanto seria necessário para isso? Em quanto tempo esse recurso será utilizado?
A partir dessas respostas, fica mais fácil definir quanto guardar, com qual frequência fazer os aportes e quais instrumentos financeiros são compatíveis com cada finalidade.
O hábito também pode contribuir para a educação financeira das próprias crianças e adolescentes. Conforme a idade aumenta, conversar sobre dinheiro, planejamento e escolhas pode ajudar a transformar a formação de uma reserva em uma oportunidade de aprendizado.
“Planejar o futuro financeiro de um filho não significa determinar o que ele fará aos 18 anos. Significa criar condições para que ele tenha mais possibilidades de escolha quando chegar lá. Pode ser para estudar, empreender, comprar um imóvel ou seguir um caminho que hoje a família ainda nem consegue imaginar”, afirma.
Para Álvaro, o Dia das Crianças pode ser um momento para olhar além dos presentes e pensar também nas oportunidades que os filhos terão pela frente. A construção desse patrimônio pode combinar diferentes instrumentos ao longo dos anos, acompanhando as mudanças nas necessidades da família e os projetos de cada fase.
O ponto de partida, segundo o especialista, não precisa ser um grande valor. Começar cedo, estabelecer uma rotina de aportes e manter o planejamento ao longo do tempo pode fazer diferença na construção de recursos para a vida adulta.
“Quando falamos de planejamento para os filhos, o principal recurso não é necessariamente o dinheiro disponível hoje, mas o tempo que a família tem pela frente. Quanto antes começar, mais espaço existe para construir esse patrimônio de forma gradual”, conclui.



