
Osvaldo Júnior – Nas horas finais, a doença fez uma justa trégua para a mãe demonstrar à filha a certeza do amor e da gratidão. “Ela me chamou com a mão – estava cansada, falando baixinho – e disse ao meu ouvido: ‘Josi, filha amada, eu amo você. Muito obrigada’. Naquela mesma noite, ela partiu”, lembra-se Josiane Mota Cangussú de um fragmento de sua vida, ocorrido em junho do ano passado em um quarto da Santa Casa de Campo Grande. A mãe dela, Tetis Mota Cangussú, faleceu aos 90 anos em decorrência do Alzheimer.
Histórias como a de Josiane são vivenciadas, com aproximações e distanciamentos, por inúmeras famílias. Apenas no ano passado, morreram 337 pessoas em Mato Grosso do Sul por complicações relacionadas ao Alzheimer. A média é de uma morte a cada 26 horas – praticamente, um óbito por dia. A atenção a essa doença ganha ainda mais relevância neste mês, devido ao “Agosto Verde”, campanha instituída pela Lei Estadual 5.088/2017, de autoria de parlamentares da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS).

Embora o “Agosto Verde” seja frequentemente associado à depressão e à ansiedade, a campanha contempla as doenças mentais, de modo geral, e neurodegenerativas, como o Alzheimer, nas ações educativas e preventivas realizadas ao longo do mês. A campanha ocorre neste período do ano em razão do Dia Nacional da Saúde, celebrado em 5 de agosto.
Alzheimer: 337 mortes em um ano
Dados do Ministério da Saúde mostram a dimensão do problema em Mato Grosso do Sul. Em 2025, foram registrados pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus) 337 óbitos resultantes da doença de Alzheimer no Estado – é uma morte a cada 26 horas.
Neste ano (até o fim de maio), são 127 mortes, média de 25 falecimentos por mês. Nos últimos cinco anos (desde 2022), Mato Grosso do Sul soma 1.430 mortes decorrentes do Alzheimer: 305 em 2022; 315 em 2023; e 346 em 2024.
Acesse aqui os dados do Datasus.
“Os ciclos da vida precisam ser respeitados”, afirma Josiane
O que consta no banco de dados do Datasus são números. Quem adoece e morre são pessoas.
Tetis Cangussú não é, meramente, um dos 337 casos registrados em 2025. Ela era mãe, avó, tia, leitora assídua, desenhista, pintora, organizadora de festa infantil, habilidosa na resolução de palavras cruzadas, inteligente, solidária. “Mamãe era um ser de uma bondade incrível com todos: familiares, irmãos, sobrinhos e, principalmente, com os pais e os filhos”, lembra-se Josiane.

“Era uma pessoa extremamente inteligente. Fazia palavras cruzadas das mais difíceis, adorava ler e tinha uma capacidade criativa espetacular. Gostava de organizar festas infantis, desenhar, pintar, recortar. Nós tínhamos um buffet de festas de casamento, aniversários de 15 anos e festas infantis. Bastava dizer o tema que ela assistia aos desenhos na televisão e criava toda a decoração”, rememora a filha.
A manifestação da doença de Alzheimer transformou Tetis. Vieram alterações de comportamento, episódios de agressividade e o comprometimento da memória. Algumas vezes, correu com tesoura ou faca atrás da irmã de Josiane, com quem morava. “Eu vou matar essa menina”, dizia, por estar contrariada com algo simples, como o pedido para que não fumasse na cama. Também levantava para fazer café de madrugada e esquecia o gás ligado, entre outras situações.
A família precisou tomar uma difícil decisão, mas acertada, como avalia Josiane, a de colocar Tetis em uma pousada particular para idosos. “Meu marido, então, se propôs a assumir a despesa. Disse que era melhor pagar do que ver, além da minha mãe, toda a família adoecer”, relata. “Na pousada encontramos pessoas extraordinárias. A dona do lugar tinha verdadeiro dom para cuidar de idosos. Como mamãe ainda pintava muito bem, montaram um ateliê só para ela”.



