
Um transplante começa muito antes da cirurgia e continua depois dela. Entre a identificação de um potencial doador e o acompanhamento de quem recebe um órgão, diferentes profissionais participam de uma jornada que envolve assistência, avaliações, exames, acolhimento e acompanhamento. No Setembro Verde, campanha de conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos, esta reportagem explica parte desse caminho e como a atuação integrada das equipes sustenta o processo de transplante no Sistema Único de Saúde (SUS).
A jornada mobiliza profissionais que atuam diretamente na assistência aos pacientes, equipes responsáveis pela doação, serviços que realizam exames e equipes cirúrgicas. Também envolve estruturas encarregadas da articulação entre os hospitais e o sistema de transplantes. Em cada etapa, são realizados procedimentos específicos para viabilizar a doação e fazer com que o órgão chegue a quem aguarda por um transplante.
Da identificação do potencial doador à captação dos órgãos
No Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Humap-UFMS), o enfermeiro Guilherme Fernandes coordena a Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes (E-Dot). Segundo ele, o processo começa ainda no atendimento ao paciente, começando pela equipe assistencial que identifica um potencial doador que esteja internado.
A partir dessa identificação, é iniciado o protocolo de morte encefálica, acompanhado pela equipe de doação de órgãos e tecidos para transplantes. O trabalho envolve a realização dos exames necessários, a comunicação com a Organização de Procura de Órgãos (OPO) e com a Central Estadual de Transplantes (CET) e o acompanhamento da família durante o processo.
As equipes do Laboratório de Análises Clínicas e de Diagnóstico por Imagem participam da realização dos exames necessários para a conclusão do protocolo de morte encefálica, além de exames de sorologia e compatibilidade que ajudam a verificar a viabilidade da doação. Depois, a equipe do centro cirúrgico atua na captação dos órgãos e tecidos autorizados para doação.
Além disso, o processo depende da articulação com serviços externos ao Hospital. A OPO e a CET oferecem suporte para a realização de exames, logística e acompanhamento dos protocolos. “Para que ocorra a efetivação da doação, precisa passar por todos esses profissionais, logo, é uma área muito abrangente que envolve várias áreas de nossa instituição”, afirma Guilherme.
O cuidado também inclui a relação com a família. Desde a entrada na instituição, os familiares são acompanhados e informados sobre o processo. Depois da conclusão do protocolo de morte encefálica, a equipe conversa com a família sobre a possibilidade de doação. Com a autorização, são realizados os procedimentos necessários para a captação dos órgãos e tecidos, e o corpo é posteriormente disponibilizado à família para os trâmites funerários.
Do preparo para o transplante ao acompanhamento depois da cirurgia
Para quem aguarda um transplante, a jornada começa com a avaliação da condição clínica e a preparação para o procedimento. No Hospital Universitário Antônio Pedro da Universidade Federal Fluminense (Huap-UFF), Jocemir Lugon, professor da Nefrologia, atua no acompanhamento de pacientes que aguardam por um transplante renal. No Estado do Rio de Janeiro, segundo o médico, pacientes que estão em programa de diálise são encaminhados pela clínica onde realizam o tratamento para um centro transplantador de referência. “Nesse serviço, passam por avaliação com um nefrologista, que orienta sobre os riscos e benefícios do transplante renal e solicita os exames necessários”, explicou.
Se não há contraindicação, o paciente é inserido na lista única de espera da Central Estadual de Transplantes. Enquanto aguarda, permanece em acompanhamento regular com a equipe de nefrologia e realiza exames para avaliação de compatibilidade com possíveis doadores. A seleção considera critérios que incluem a compatibilidade entre doador e receptor. Quando ocorre a doação, pontuou Jocemir, “o processo entre a identificação do doador e a realização da cirurgia que, no caso, do Huap-UFF, é realizada pelos urologistas, geralmente leva menos de 24 horas”.
Depois do transplante e da alta hospitalar, o acompanhamento continua com o mesmo time que participou do preparo. Nos primeiros meses, as consultas ocorrem em intervalos menores e, gradualmente, tornam-se mais espaçadas. A equipe acompanha a evolução clínica, prescreve os medicamentos, incluindo os imunossupressores usados para evitar a rejeição do órgão, e atua diante de possíveis complicações. “O maior risco são as infecções, pois os pacientes ficam com a imunidade muito reduzida, e há o risco de rejeição do órgão”, explica Jocemir.
A nefrologia permanece como referência para o paciente, mas o cuidado envolve outras especialidades. A equipe cirúrgica realiza o procedimento e outros profissionais podem participar da avaliação e do acompanhamento, como cardiologistas e patologistas. Com a recuperação, o paciente deixa de depender da diálise e pode ter mais liberdade na alimentação, na ingestão de líquidos e nas viagens. Como orienta Jocemir, “Os principais cuidados são o uso regular dos imunossupressores e demais medicamentos, não deixar de fazer o acompanhamento regular e ter sempre a equipe que o acompanha como referência para qualquer problema ou dúvida relacionada à sua saúde”.



