Economia criativa transforma pavilhão da FLIB em vitrine de arte, afeto e identidade local

Evelise Couto – Na 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB), as histórias não estão apenas nos livros. Elas também aparecem bordadas em tecido, moldadas em cabaças, costuradas em bolsas, transformadas em biojoias, panos de cera, camisetas, sabonetes naturais e peças feitas a muitas mãos. Em uma área do pavilhão dedicada à economia criativa, artesãos, associações, coletivos e empreendedores locais mostram que cultura também se faz no detalhe, na memória, no reaproveitamento e no talento de quem transforma o território em criação.

O espaço reúne iniciativas como a Associação Eco Criativos Grande Marambaia, Associação dos Artesãos de Bonito, Ybirá Ecodesign, Ateliê Calabaza, Buga Peralta, Eron Artes Modernas, La Pablita Bordados, Cerrado Bonito, Instituto Família Legal, Mãos do Cerrado e o grupo Mulheres que Criam. Cada estande revela um pedaço de Bonito: a fauna, a flora, os rios, o Cerrado, o Pantanal, os saberes familiares, a vida comunitária e a força de quem encontrou no fazer manual uma forma de renda, expressão e autonomia.

Saberes, território e criação

Na Associação Eco Criativos Grande Marambaia, o artesanato vem acompanhado de formação, sustentabilidade e turismo de base comunitária. O grupo reúne cerca de 20 profissionais de áreas como gastronomia, artesanato e audiovisual, em uma região formada por várias vilas de Bonito. Segundo o presidente da associação, Genivaldo Luz, o trabalho busca abrir caminhos para que mais pessoas possam empreender a partir dos próprios talentos.

“A gente está oferecendo oficinas gratuitas para que outras pessoas que queiram empreender também possam produzir e se associar. Tudo isso tem esse foco de gerar renda para a comunidade”, explica.

Entre os produtos levados à FLIB estão marcadores de livros em formato de pássaros, feitos com papel machê, coquinho de bacuri e pedaços de couro. A associação também desenvolve uma trilha urbana de observação de aves na Grande Marambaia, com a proposta de envolver monitores da própria comunidade.

A Associação dos Artesãos de Bonito também ocupa o pavilhão com uma variedade de peças regionais. Há chaveiros de capivara, brincos inspirados em araras e tucanos, agendas, ímãs, bolsas, vestuário, trabalhos com sementes, madeira reaproveitada e pequenas placas com versos e referências à cultura local, como o poeta Manoel de Barros. Para a artesã Rejane Nascimento Figueira, participar de uma associação fortalece quem produz. “É gratificante porque a gente consegue expor e vender os nossos produtos. Fazer parte é importante porque é um coletivo que orienta e ajuda”, afirma.

Natureza como matéria-prima

No Ateliê Calabaza, comandado pela artesã Micchelle Vieira Martins, a natureza ganha outra forma. Criado em 2010, o espaço trabalha com cabaças, crochê e tecidos para criar peças exclusivas, sustentáveis, decorativas e utilitárias. A proposta vai além do objeto: cada peça é pensada como parte de um ciclo inteiro, capaz de levar afeto, alegria e uma nova energia aos ambientes.

Na Cerrado Bonito, de Joana Duarte, o conhecimento sobre plantas medicinais se transforma em sabonetes, hidratantes, repelente natural, shampoo, condicionador e outros produtos de cuidado. A marca, criada em 2019, utiliza ingredientes do Cerrado, como bacuri e bocaiúva. A inspiração vem da memória familiar. “Eu cresci observando minha avó, que tratava a gente com remédios naturais. Depois fiz curso de plantas medicinais e fui desenvolvendo os produtos”, conta Joana.

A Mãos do Cerrado, de Yolanda Prantl Mangieri, também leva à feira cosméticos naturais feitos com plantas conhecidas por suas propriedades terapêuticas, como barbatimão, macela, cúrcuma, bucha vegetal e clitória. Os sabonetes são produzidos sem corantes, com flores incorporadas às peças e infusões preparadas a partir das plantas. “Eu faço um chá para fazer os sabonetes. É uma técnica que eu desenvolvi”, conta Yolanda.

A sustentabilidade também aparece no trabalho da Ybirá Ecodesign, de Katia Cardeal, que participa da FLIB pelo terceiro ano com uma solução simples para reduzir o uso de plástico na cozinha. A marca produz panos de cera reutilizáveis, feitos com tecido 100% algodão, cera de abelha, óleo de coco orgânico e resina vegetal. “É biodegradável e reutilizável. Você usa, lava, seca na sombra e reutiliza de seis a oito meses. Quando perde a liga, pode ir para a compostagem ou virar acendedor de churrasqueira. Não sobra nada na natureza”, explica Katia.

Renda, afeto e futuro

Na La Pablita Bordados, de Gabriela Rodrigues Junqueira, literatura, música e cultura viram pontos. A marca nasceu em homenagem a Pablo Neruda e mantém uma relação forte com a escrita. Para a FLIB, Gabriela criou peças inspiradas em livros, arte e música, além de bordados ligados aos povos originários, à fauna e à flora do Pantanal. “O bordado transmite através das linhas aquilo que, às vezes, a gente não consegue trazer de outra forma. Um trecho de livro ou de música pode ganhar significado nas linhas tortas do bordado”, diz.

O grupo Mulheres que Criam leva ao pavilhão uma produção que fala de autonomia, autoestima e cuidado. O projeto é desenvolvido pela Secretaria de Assistência Social de Bonito, por meio do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos do CRAS Dr. Ireno dos Santos, e reúne mulheres em oficinas de crochê realizadas semanalmente. A psicóloga social e comunitária Heli Figueiredo explica que a iniciativa atende, em média, 25 mulheres, muitas delas da periferia e de comunidades rurais. “É uma possibilidade de autonomia financeira, mas também de resgate da autoestima. Muitas relatam que estavam em processo de depressão e que o crochê também se tornou uma terapia”, afirma.

Já no Instituto Família Legal, presidido por Yolanda Prantl Mangieri, o projeto Fibra Viva transforma malotes descartados dos Correios em bolsas e peças artesanais. A iniciativa atende cerca de 50 crianças em Bonito e envolve mães na confecção dos produtos. Metade do valor das vendas fica com as mulheres que produzem e a outra parte ajuda na manutenção do instituto. As peças, feitas com reaproveitamento de material, trazem referências à fauna e à flora regional.

Na Eron Artes Modernas, de Erondina Mancuello Peralta, a costura criativa é ponto de partida para transformar referências de Bonito em bolsas, nécessaires, chaveiros e acessórios. Nascida no município, a artesã diz que a própria cidade oferece os elementos para a criação. Uma das peças ganhou o nome “Curvas do Formoso”, inspirada no rio que marca a paisagem local. “Bonito é um lugar propício para isso. A própria cidade vai fornecendo elementos para a nossa criatividade”, destaca.

Também inspirada na fauna pantaneira e nos traços regionais, a artista Buga Peralta apresenta camisetas com desenhos autorais. As peças são únicas e, em uma delas, a criação atravessa gerações: um desenho feito pelo neto da artista, Valentin, foi transformado em estampa.

Ao abrir espaço para a economia criativa, a FLIB amplia seu próprio sentido. A feira segue sendo lugar de encontro com autores, livros e ideias, mas também se torna vitrine para quem faz cultura com as mãos, com a memória e com o território. No pavilhão, cada peça carrega uma história — e juntas, elas mostram que a criatividade em Bonito não é apenas produto: é pertencimento, renda, identidade e futuro.

Evento oficial

A FLIB, em 2026, presta homenagem à escritora Lygia Fagundes Telles e ao escritor e editor douradense Luciano Serafim, que faleceu em 2025 e teve participação marcante na história da feira.

A edição conta com apoio de instituições públicas e privadas, incluindo recursos viabilizados por emendas parlamentares, além da participação da Caixa, Sesc MS, Sebrae, Sanesul, Prefeitura Municipal de Bonito, Câmara Municipal de Bonito, Ministério da Cultura e do Estado de Mato Grosso do Sul.

A FLIB integra o Calendário Municipal de Eventos de Bonito e, desde a publicação do decreto estadual nº 6.457, de 11 de agosto de 2025, também faz parte do Calendário Oficial de Eventos de Mato Grosso do Sul, reforçando sua relevância no cenário cultural e educacional do estado.

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