Flexibilidade acadêmica e acolhimento institucional reduzem evasão e permitem que mães mantenham o projeto do diploma mesmo diante da sobrecarga
Evelise Couto – Depois que os filhos dormem e a casa finalmente silencia, começa uma nova jornada. É nesse intervalo entre a rotina doméstica e o descanso que muitas mulheres abrem o notebook, acessam a plataforma de estudos e retomam um projeto que, por muito tempo, ficou em pausa: o diploma.
No dia 8 de março, quando o Dia Internacional da Mulher convida à reflexão sobre conquistas e desafios femininos, os dados do ensino superior ajudam a dimensionar esse movimento. As mulheres representam 59,1% das cerca de 10 milhões de matrículas na graduação no Brasil, segundo o Censo da Educação Superior 2023, divulgado pelo Ministério da Educação e pelo Inep. Entre os ingressantes, elas também são maioria, com 59,4%.

Por trás dos números, há histórias de mães que conciliam trabalho, filhos e provas. E, nesse contexto, o ensino a distância (EAD) tem sido decisivo para transformar planos adiados em metas concretas.
Rotina dividida – Aos 33 anos, Thais da Silva Perez equilibra três frentes diárias: o trabalho em uma farmácia de manipulação, o curso de Farmácia e a criação dos filhos Pedro Augusto, de 13 anos, e Luiza Emanuele, de 5.
“Os desafios sempre existem, mas sendo mãe solo é ainda mais difícil. Tento conciliar da melhor forma os estudos, o trabalho e ser mãe. No final, dá certo”, afirma.
O curso é semipresencial, e parte das disciplinas ocorre no formato EAD, o que tem facilitado a organização da rotina. “É diferente para quem sempre estudou presencialmente, mas me adaptei bem fácil.”
O ponto de virada veio no segundo semestre, quando conquistou boas notas em todas as disciplinas. “Ali eu percebi que vou dar conta até o final.” Para outras mães, ela deixa um incentivo. “Nunca desistam. No começo é difícil, mas somos fortes e pensamos no melhor futuro para nossos filhos.”
Em busca do sonho – A advogada Karine Alberti Manfrin Calemes, de 35 anos, também reorganizou a própria vida para não abandonar um sonho antigo: cursar Psicologia. Formada em Direito há mais de uma década, ela precisou trancar a segunda graduação em momentos distintos, inclusive por complicações na gestação da filha mais nova.
Hoje, combina disciplinas presenciais e online para avançar no curso. “Se eu tivesse que fazer toda a grade presencialmente, eu não conseguiria. Na minha realidade hoje, trabalhando e com duas crianças pequenas, não daria.”
As disciplinas a distância são realizadas, na maioria das vezes, à noite, quando a casa já está tranquila. “Se não tivesse essa parte online, eu demoraria muitos anos para concluir.”
Os desafios emocionais são constantes. “Às vezes estou saindo para a faculdade e minha filha acorda querendo colo. A gente se cobra muito, quer fazer o melhor como mãe e como aluna. Nem sempre consegue.” Ainda assim, ela mantém o propósito. “Receber esse diploma vai ser a realização de um sonho e uma forma de mostrar aos meus filhos que é possível persistir, mesmo com dificuldades.”
Flexibilidade e acolhimento – Para a coordenadora de Relacionamento da Estácio, Lidiane Vargas, o ensino a distância tem sido um aliado importante para mulheres que precisam administrar múltiplos papéis.
“O EAD oferece flexibilidade e autonomia. A aluna pode estudar no horário que for melhor, muitas vezes depois que as crianças dormem, sem precisar se deslocar todos os dias até a faculdade”, explica.
A estrutura acadêmica pode ser organizada em diferentes formatos de oferta para atender essa realidade, com aulas ao vivo que ficam gravadas, materiais disponíveis em plataforma digital, calendário acadêmico acessível e possibilidade de agendamento online das avaliações. “Muitas mães destacam como principal vantagem poder organizar os estudos no próprio ritmo e economizar tempo.”
Segundo Lidiane, o impacto vai além da formação profissional. “O EAD traz autoconfiança, novas oportunidades e a possibilidade real de transformação, sem que a mulher precise abrir mão do cuidado com a família.”
Além da flexibilidade, o suporte institucional é fundamental para garantir a permanência dessas estudantes. A psicopedagoga Ariane Meneghetti, coordenadora do Núcleo de Apoio e Atendimento Psicopedagógico da Estácio – NAAP, relata que muitas mães chegam sobrecarregadas física e emocionalmente.
“Elas relatam cansaço excessivo, dificuldade para organizar o tempo e sentimento de culpa por não dar conta de tudo. Nosso trabalho é realizar uma escuta ativa e um acompanhamento individualizado, ajudando a reorganizar a rotina e fortalecer a confiança”, afirma.
Segundo Ariane, é comum acompanhar mulheres que pensaram em desistir. “Quando a estudante se sente compreendida e apoiada, ela consegue enfrentar os desafios e seguir com seu projeto de vida e formação profissional.”
Protagonismo que inspira – Entre 2013 e 2023, o número de mulheres matriculadas no ensino superior cresceu 138,6%, passando de 4,2 milhões para cerca de 10 milhões.
Se os dados revelam avanço, histórias como as de Thais e Karine mostram o significado real dessa transformação. Mães que estudam depois que os filhos dormem, que reorganizam a vida mais de uma vez, que enfrentam dúvidas e cansaço e que seguem.
Entre mamadeiras, agendas escolares e provas da faculdade, elas constroem não apenas uma carreira, mas um exemplo diário de persistência.




