Outubro Rosa: quando a campanha é bonita, mas o cuidado não sai do discurso

Ações de conscientização precisam ir além do marketing e se refletir nas decisões dos gestores, na cultura organizacional e no cuidado com os colaboradores

Evalise Couto – Durante o mês de outubro, empresas adotam a cor rosa, promovem palestras, distribuem laços e compartilham mensagens sobre a importância da prevenção ao câncer de mama. Mas o que acontece quando uma colaboradora precisa se ausentar para fazer um exame? Ou quando uma profissional enfrenta um diagnóstico e necessita de mudanças na rotina de trabalho? É nessas situações que o compromisso das organizações com a saúde das pessoas é colocado à prova.

Para Elaine Fernandes, psicóloga e sócia da P2B Cultura & Liderança, campanhas como o Outubro Rosa são importantes ferramentas de conscientização, mas perdem força quando não encontram respaldo nas práticas de gestão. Segundo ela, cabe às lideranças transformar o discurso institucional em atitudes que façam sentido na rotina dos colaboradores.

“É importante as empresas realizarem campanhas de prevenção e, simultaneamente, criarem oportunidades para que as colaboradoras realizem seus exames. A campanha precisa ser coerente e sustentada por ações e práticas reais no que diz respeito sobre a forma como a organização trata as pessoas. E essa coerência vem, em especial, de quem lidera”, afirma.

A discussão ganha relevância diante dos números do câncer de mama no Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a estimativa é de 78.610 novos casos por ano entre 2026 e 2028. Embora as campanhas de conscientização sejam importantes para ampliar o acesso à informação, a prevenção e o diagnóstico precoce também dependem de condições para que as pessoas procurem atendimento de saúde.

No ambiente empresarial, isso significa compreender que o cuidado não pode ser tratado apenas como uma responsabilidade individual. Jornadas rígidas, cobranças excessivas e uma cultura que valoriza a disponibilidade permanente podem levar profissionais a adiar consultas e exames por receio de prejudicar a carreira ou sobrecarregar os colegas.

Segundo Elaine, uma liderança comprometida com o bem-estar da equipe deve atuar justamente para que esse tipo de situação não aconteça. “Um bom líder não espera que a pessoa precise escolher entre cuidar da saúde e cumprir suas responsabilidades profissionais. Ele organiza o trabalho, dialoga com a equipe e busca alternativas para que as duas coisas sejam possíveis. Isso não significa abrir mão de resultados, mas compreender que pessoas saudáveis são parte fundamental deles”, explica.

O exemplo começa na liderança

Para a psicóloga, um dos principais erros das organizações é tratar campanhas de saúde como iniciativas exclusivas dos departamentos de Recursos Humanos ou Comunicação. Embora essas áreas sejam importantes para a mobilização interna, o impacto das ações depende do envolvimento efetivo dos gestores.

Na prática, pequenas atitudes podem fazer diferença. Facilitar o agendamento de consultas, respeitar afastamentos médicos, acolher profissionais que retornam de tratamentos e evitar cobranças invasivas sobre questões de saúde são exemplos de comportamentos que demonstram comprometimento.

O contrário também acontece. Uma empresa pode investir em campanhas de conscientização e, ao mesmo tempo, manter uma cultura em que colaboradores se sintam constrangidos ao apresentar um atestado ou solicitar uma mudança de horário para realizar exames.

“Os colaboradores percebem rapidamente quando existe uma distância entre aquilo que a empresa comunica e o que realmente acontece. Se o discurso é de acolhimento, mas o comportamento das lideranças não corresponde ao que é propagado, a mensagem perde credibilidade. Cultura organizacional não é aquilo que está escrito, mas o que as pessoas vivenciam diariamente”, destaca Elaine.

Outro ponto importante é compreender que incentivar o cuidado com a saúde não significa exigir que os profissionais compartilhem diagnósticos ou informações pessoais. O acolhimento deve ser acompanhado de respeito à privacidade, à autonomia e aos limites de cada colaborador.

A campanha acaba. O compromisso não.

O Outubro Rosa também oferece às empresas uma oportunidade de avaliar se suas políticas internas realmente favorecem o cuidado com as pessoas. Mais do que contabilizar a participação em palestras ou o alcance de publicações, é importante observar se os colaboradores encontram apoio quando precisam buscar atendimento médico e se os gestores estão preparados para lidar com situações de adoecimento.

Para Elaine, esse olhar precisa fazer parte da estratégia das organizações e não depender exclusivamente de datas comemorativas. “Uma campanha de saúde não pode ser apenas uma oportunidade de fortalecer a imagem da empresa. Ela precisa provocar uma reflexão sobre como as pessoas estão sendo tratadas. Quando o líder entende isso, ele deixa de ser alguém que apenas compartilha a mensagem da campanha e passa a ser um agente de transformação dentro da organização”, avalia.

A reflexão também vale para o Novembro Azul e outras mobilizações voltadas à saúde física e emocional dos trabalhadores. O desafio das organizações é fazer com que a preocupação com o bem-estar não desapareça quando as ações de comunicação chegam ao fim.

“Vestir uma camiseta rosa, compartilhar uma mensagem e dizer que a empresa apoia uma causa é uma parte do processo. A congruência será percebida nas possibilidades reais de acesso aos exames e tratamentos pelas colaboradoras. Dessa forma a liderança demonstra se o cuidado é realmente um valor da organização”, conclui Elaine.

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