Pressão para estar sempre ocupado, dificuldade de descansar e sensação constante de que é preciso produzir podem favorecer estresse, ansiedade e esgotamento
Beatriz Felício – Em uma rotina marcada por prazos, notificações e cobranças por desempenho, estar sempre ocupado pode parecer sinônimo de eficiência. No entanto, a busca constante por produtividade pode ultrapassar os limites do saudável e transformar o trabalho e as tarefas cotidianas em uma fonte permanente de tensão. A chamada hiperprodutividade ocorre quando a pessoa sente que precisa estar continuamente fazendo algo, tem dificuldade de descansar e associa seu valor pessoal ao quanto consegue produzir.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que ambientes de trabalho com cargas excessivas, baixo controle sobre as atividades e insegurança profissional representam riscos para a saúde mental. Segundo a instituição, depressão e ansiedade provocam, globalmente, a perda estimada de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com um custo de aproximadamente US$ 1 trilhão em perda de produtividade. No Brasil, o cenário também chama atenção. Dados mais recentes do levantamento State of the Global Workplace, da Gallup, mostram que 45% dos trabalhadores brasileiros disseram ter experimentado muito estresse no dia anterior à pesquisa, acima da média global, de 40%.
Para a Dra. Renata Caveari, coordenadora do curso de psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, a hiperprodutividade pode criar um ciclo difícil de interromper. “Quando a pessoa passa a acreditar que precisa estar constantemente produzindo para se sentir competente, útil ou valorizada, o descanso deixa de ser percebido como uma necessidade e passa a ser visto como perda de tempo. Isso favorece a culpa, ansiedade e uma sensação permanente de insuficiência”, explica.
Um dos sinais de alerta é justamente a incapacidade de desacelerar. Mesmo diante de um momento livre, a pessoa pode sentir necessidade de responder mensagens, antecipar tarefas, trabalhar além do horário ou preencher o tempo com novas atividades. De acordo com a especialista, com o passar do tempo, essa lógica pode comprometer a recuperação física e emocional. A pessoa pode apresentar irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono, sensação de exaustão, redução da motivação e dificuldade para se desconectar das obrigações.
“O problema não está em ser uma pessoa produtiva ou gostar de realizar atividades. A questão é quando produzir se transforma em uma exigência constante e o indivíduo perde a capacidade de reconhecer seus próprios limites. O descanso, nesse contexto, precisa ser compreendido como parte do cuidado com a saúde, e não como um prêmio depois de cumprir todas as tarefas”, afirma a especialista.
8 Sinais de que a produtividade está virando um problema
De acordo com a psicóloga, alguns comportamentos podem indicar que a busca por desempenho está deixando de ser saudável:
- Sentir culpa ao descansar ou não fazer nada;
- Ter dificuldade para dizer “não” a novas demandas;
- Trabalhar ou estudar mesmo quando está exausto;
- Sentir ansiedade quando não está realizando alguma tarefa;
- Estabelecer metas cada vez mais altas, sem reconhecer as próprias conquistas;
- Levar constantemente preocupações profissionais para os momentos de lazer;
- Dormir menos para conseguir cumprir mais atividades;
- Associar autoestima e sensação de valor pessoal ao desempenho.
O que fazer para desacelerar?
O primeiro passo é reconhecer que descanso não precisa ser condicionado ao término de todas as obrigações. Dessa forma, estabelecer horários para encerrar as atividades, reduzir notificações fora do expediente, respeitar períodos de sono e incluir momentos de lazer na rotina são estratégias que podem ajudar a recuperar os limites entre obrigação e descanso. Também é importante observar pensamentos recorrentes como “eu deveria estar fazendo alguma coisa” ou “não posso parar agora”. Quando a necessidade de produzir começa a provocar sofrimento, ansiedade ou prejuízos significativos na vida pessoal e profissional, buscar acompanhamento psicológico pode ser importante.




