Sabores, ciência e conservação abrem caminhos no Pantanal

Da cozinha de Bruno Arruda, em Corumbá, aos projetos de turismo, inovação e carbono, iniciativas buscam transformar a riqueza natural e cultural do bioma em trabalho e oportunidades para quem vive no território

“Meu pai sempre gosta de dizer que do pé de manga não cai goiaba, cai manga.” Aos 42 anos, o cozinheiro Bruno Arruda resume assim a herança que recebeu dos pais, Rosa e João, e transformou em profissão. Nascido e criado em Corumbá, ele cresceu entre receitas pantaneiras e, há mais de oito anos, comanda ao lado da esposa a marca Boia Boa, levando pratos tradicionais a festas de bairro, ao Festival América do Sul e às celebrações de São João.

A trajetória de Bruno mostra como a cultura do Pantanal pode deixar de ser apenas memória para também gerar trabalho e renda. É essa conexão entre conservação, identidade e desenvolvimento que orienta a estratégia conduzida pelo governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, para diversificar a economia pantaneira sem repetir modelos baseados apenas na retirada de recursos naturais.

Ao lado da pecuária, atividades como turismo, produção comunitária, ciência e serviços ambientais começam a abrir novas frentes econômicas. A estrutura, porém, ainda está em construção. O desafio é fazer com que o movimento de visitantes, os projetos de inovação e os instrumentos de conservação se convertam em renda distribuída entre trabalhadores, comunidades e pequenos empreendedores.

Na cozinha de Bruno, essa economia ganha cheiro e sabor. Sopa paraguaia, paçoca de carne-seca, carreteiro e macarrão de comitiva — o principal prato da casa — carregam receitas ensinadas por dona Rosa e ajudam a apresentar o território a quem chega de fora.

“São receitas que carregam história, tradição e o jeito pantaneiro de receber as pessoas”, afirma. O reconhecimento não veio sem dificuldades.

“Construímos nossa marca, nosso nome e nossa identidade por amar a nossa cultura e fazer questão de levá-la para todos os lugares. Amo usar chapéu de palha, amo dizer que sou pantaneiro e hoje ser reconhecido como referência na culinária pantaneira é motivo de muito orgulho.”

Para Bruno, preservar a gastronomia significa manter viva a identidade regional e fortalecer o turismo. Seu convite aos visitantes inclui Corumbá, a Capital do Pantanal, e Ladário, a Pérola do Pantanal, cidades onde, segundo ele, a culinária está profundamente enraizada.

Turismo movimenta empregos e pequenos negócios

Corumbá, principal porta de entrada do Pantanal sul-mato-grossense, registroa dezenas de milhares de turistas anualmente. A cidade conta com quatro voos semanais, aumento de 40% na oferta de assentos e ocupação média de 70% até o ano passado.

No turismo náutico e na pesca esportiva, os embarques também atingem a casa das dezenas de milhares, gerando emprego e renda com a criação de postos formais ligados às atividades características do turismo, entre alimentação, hospedagem, transporte, agências e cultura.

Os números representam movimentação aeroportuária, e não necessariamente turistas únicos, mas ajudam a dimensionar a circulação pelo destino.

O potencial, entretanto, ainda esbarra em dificuldades de acesso, oscilação dos voos, custos

elevados e necessidade de qualificação. “Para transformar fluxo em renda distribuída, é preciso fazer o visitante permanecer mais tempo, consumir produtos locais e encontrar serviços estruturados”, afirma Riedel.

A promoção do Pantanal em feiras e rodadas de negócios nacionais e internacionais integra essa estratégia. Ao mesmo tempo, ações previstas no Pacto Pantanal em áreas como estradas, pistas, comunicação, saneamento e segurança interferem diretamente na experiência dos visitantes e na capacidade dos pequenos negócios de atendê-los.

Artesanato leva um pedaço do Pantanal aos visitantes

O efeito do turismo também aparece no trabalho da Associação Pantanal Corumbá Produz, que reúne 22 artesãos. À frente da entidade, Suzianny afirma que o apoio do Governo do Estado tem ampliado a visibilidade dos produtos regionais e criado oportunidades para quem vive da produção artesanal.

“Esse apoio valoriza nosso trabalho e amplia as oportunidades para que o turismo sustentável seja, de fato, um motor de desenvolvimento para Corumbá e para todo o Pantanal”, diz.

Além de administrar a associação, Suzianny produz itens apícolas, transformando o mel em sabonetes e velas. É uma forma de agregar valor a uma matéria-prima regional e oferecer ao visitante mais do que uma lembrança.

“É maravilhoso ver a oportunidade que o turista tem de conhecer, viver e ainda poder levar um pedacinho do Pantanal consigo”, afirma.

Bioeconomia depende de participação e estrutura

Para o especialista em biodiversidade e serviços ecossistêmicos Fabio Roque, o Pantanal reúne algumas das melhores oportunidades do mundo para combinar conservação da biodiversidade, produção sustentável e cadeias de valor baseadas na natureza.

Atividades já consolidadas, como a pecuária em pastagens nativas, a pesca, o ecoturismo e o turismo de base comunitária, mostram que a economia regional pode se desenvolver com o bioma preservado. Há também espaço para ampliar cadeias de alimentos, cosméticos e outros produtos derivados da biodiversidade.

Roque ressalta, porém, que essa transição precisa ser participativa e multissetorial. Governos, setor produtivo, comunidades tradicionais, povos indígenas, pesquisadores e organizações da sociedade civil devem atuar juntos na criação de marcos regulatórios, tecnologias, capacitação, infraestrutura e mecanismos de financiamento.

“A bioeconomia não se limita a laboratórios ou créditos de carbono. Ela aparece quando comunidades transformam alimentos, artesanato, conhecimentos e experiências culturais em produtos capazes de gerar renda sem destruir o ambiente”, afirma Riedel.

Um dos exemplos é a Bruaca, negócio social apoiado pelo Programa Centelha, executado pela Fundect. A iniciativa trabalha com comunidades indígenas, ribeirinhas, pequenos produtores e assentados, combinando turismo de base comunitária, comercialização de produtos tradicionais e formação em gestão, empreendedorismo e definição de preços.

A proposta começou como uma plataforma digital, mas dificuldades de logística, conectividade e organização levaram à criação de um centro de distribuição e de um núcleo de inovação social mais adaptado à realidade local.

O projeto mostra como a bioeconomia pode aparecer na vida cotidiana: em vez de comercializar somente matéria-prima, as comunidades agregam valor por meio de sua identidade, história e conhecimento, criando alimentos, artesanato, roteiros turísticos, oficinas e experiências culturais.

Para ganhar escala, contudo, esses negócios precisam de transporte, internet, embalagem, regularização sanitária e acesso a mercados. “Sem essa estrutura, produtos com potencial permanecem restritos a feiras ocasionais ou são vendidos por valores insuficientes”, reflete o governador.

O diretor-presidente da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul, Bruno Wendling, afirma que o mercado procura destinos com identidade, propósito e responsabilidade. Para ele, o turismo pode conectar viajantes aos produtos da bioeconomia e ao conhecimento das comunidades, mas a prosperidade depende de políticas públicas contínuas e do protagonismo da população local na cadeia de valor.

Ciência leva a biodiversidade ao mercado

A riqueza biológica do Pantanal também começa a gerar inovação. A Pantabio, empresa nascida de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, em Aquidauana, criou um bioinsumo agrícola a partir de fungos nativos do bioma.

O produto busca controlar doenças, estimular o crescimento das plantas e reduzir impactos ambientais. Apoiada pelo Programa Centelha, a startup venceu, em 2025, a etapa Centro-Oeste do Prêmio Finep de Inovação na categoria de empresas de base científica.

“Este caso mostra uma cadeia que começa na biodiversidade, passa pela universidade e chega ao mercado. O recurso natural não é apenas extraído: gera pesquisa, tecnologia e um produto de maior valor agregado”, afirma Riedel.

Em 2025, o Desafio Pantanal Tech selecionou três propostas nas áreas de bioeconomia, biodiversidade, turismo e agronegócio. Cada projeto teria bolsa mensal de R$ 6,5 mil durante 12 meses para desenvolver a pesquisa e aproximá-la de aplicações práticas.

Outro edital estadual destinou R$ 10 milhões a 11 empresas dos setores de biofármacos, biocosméticos, alimentos funcionais e outros segmentos. O investimento alcança todo Mato Grosso do Sul, não apenas o Pantanal, mas fortalece uma estrutura de inovação capaz de aproveitar pesquisas originadas no bioma.

A política conduzida por Riedel busca aproximar ciência e desenvolvimento econômico. Entre a descoberta no laboratório e a chegada ao mercado, porém, ainda existem etapas como certificação, produção em escala, proteção intelectual e acesso a compradores.

Carbono entra na estratégia estadual

A vegetação preservada também presta serviços que podem ser medidos e comercializados. Árvores e solos armazenam carbono, áreas restauradas retiram gases de efeito estufa da atmosfera e ecossistemas conservados protegem água e biodiversidade.

Para organizar esse patrimônio, Mato Grosso do Sul criou, em dezembro de 2025, a MS Ativos Ambientais, companhia responsável por estruturar projetos de carbono, restauração, biodiversidade e outros serviços ambientais.

Em junho de 2026, a empresa publicou seu primeiro chamamento para selecionar um parceiro com experiência nos mercados voluntário ou regulado de carbono. A parceria deverá estruturar, certificar e negociar créditos gerados por restauração, soluções baseadas na natureza e redução do desmatamento.

O edital proíbe a venda dos créditos antes da certificação e da emissão e prevê transparência, integridade ambiental e repartição de benefícios com povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, quando aplicável.

As salvaguardas procuram responder a problemas ainda presentes nesse mercado, como dúvidas sobre medição, dupla contagem, permanência das áreas conservadas e destino dos recursos. Um crédito só possui valor efetivo quando representa um resultado verificável e beneficia quem ajudou a produzi-lo.

Preservar precisa gerar renda na ponta

“Turismo, bioeconomia e carbono partem da mesma ideia: uma paisagem conservada pode produzir valor repetidas vezes”, diz o governador.

Uma onça observada por visitantes, um conhecimento transformado em produto, uma área que armazena carbono ou uma comunidade que oferece uma experiência cultural podem gerar renda sem consumir definitivamente o patrimônio que lhes dá origem.

Isso não torna automaticamente sustentável toda atividade apresentada como verde. O turismo desordenado pode produzir lixo e pressionar áreas sensíveis. A exploração da biodiversidade pode se apropriar de conhecimentos tradicionais sem repartir os ganhos. Projetos de carbono podem gerar créditos, mas tem que melhorar a vida das comunidades.

A próxima etapa exigirá indicadores de renda local, transparência, participação comunitária e controle ambiental. Riedel chega a esse ciclo com parte da estrutura criada: promoção turística, programas de inovação, instrumentos de pagamento pela conservação e uma companhia voltada aos ativos ambientais. Estas ferramentas apontam para uma economia que procura superar a antiga escolha entre produzir e preservar.

O resultado será medido pelo que chegar à vida das pessoas: o guia com mais trabalho, a artesã que vende por preço justo, o jovem que permanece na comunidade, o pesquisador que transforma conhecimento em empresa e famílias que recebem parte da renda gerada pela conservação.

Na cozinha de Bruno Arruda, essa transformação já tem uma expressão concreta. Cada prato servido leva ao visitante uma história de família e um pedaço do Pantanal. Para que experiências como a dele se multipliquem, a riqueza do bioma precisará permanecer viva — e alcançar, em forma de renda e oportunidade, quem também ajuda a mantê-la.

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