
Fernanda Kintschner Foto: Criada por IA – “É só um golinho”… “precisa tomar muito para fazer mal”… “cerveja preta pode, é para ter bastante leite”… são frases que parecem inofensivas, mas a ciência vem comprovando que não há mais espaço para a chamada “dose segura” na combinação entre álcool e gravidez.
Mato Grosso do Sul inicia a partir da segunda semana do mês de setembro a Campanha Gravidez Segura e Prevenção à Síndrome Alcoólica Fetal (SAF), por força da Lei Estadual 6.220 de 2024, com a disseminação de informações para cada vez mais salvar bebês e mamães de abortos e má formações.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o álcool é responsável por 3,3 milhões de mortes por ano. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) elenca que a literatura mundial considera os efeitos da ingestão de álcool no feto, no recém-nascido e na criança, como uma epidemia silenciosa. Isso ocorre porque qualquer dose de álcool pode levar a alterações no desenvolvimento fetal.
Dentre as repercussões estão a vasoconstrição placentária, o crescimento intrauterino restrito, asfixia perinatal e alterações no DNA. Com a absorção do álcool pela corrente sanguíneo e líquido amniótico, atinge a circulação fetal e afeta o desenvolvimento com do bebê, gerando consequências também à mãe e à saúde pública como um todo.
Diante disto, estudo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) relembra que é importante preservar o desenvolvimento fetal:
Membros inferiores: se desenvolvem entre 4 a 8 semanas;
Genital externa: 7 semanas;
Membros superiores: 4 a 8 semanas;
Olhos: 4 semanas;
Sistema nervoso central: 3 semanas;
Coração: 3 a 6 semanas.
Os efeitos do álcool de acordo com os períodos gestacionais:
Pré-implantação (fertilização a 4 semanas): pode causar abortamento.
Período embrionário (até 8 semanas): alterações na divisão, proliferação, diferenciação e migração celular, resultando em alterações estruturais grosseiras.
Período fetal (9 a 40 semanas): alterações estruturais no sistema nervoso central, malformações cardíacas e renais e sinais neurocomportamentais.
Separação e reencontro
Anos de luta contra o alcoolismo levaram a família da jornalista Daniela Benante a buscar uma decisão drástica: separá-la ainda bebê de sua mãe biológica. Feliz com sua vida no núcleo adotivo que a acolheu, foi a maternidade de Daniela que a fez buscar sua mãe biológica e entender mais sobre o que havia ocorrido. “Depois de 34 anos encontrei minha mãe biológica com saúde, sem o vício. Mas foi quando descobri, pela família, que ela foi alcóolatra durante anos e até mesmo quando estava grávida. Por isso um tio mais velho resolveu que, na época, ela não teria condições de me criar. Felizmente quando a conheci já estava livre do vício, mas foi a causa do óbito dela: minha mãe teve câncer de laringe devido ao uso do fumo e álcool”, relata a jornalista.
A superação nem sempre depende de somente boa vontade, mas de um apoio de equipe multidisciplinar com psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, nutricionistas e outros profissionais para o atendimento contra a dependência. A médica Bianca Stavis, pediatra e neonatologista, relembra que quanto antes buscar ajuda e conscientizar-se das consequências, menos sequelas podem ocorrer. “É uma condição sem cura e permanente, que pode causar alterações físicas e neurológicas, como microcefalia”, ressaltou.




