Eduardo Riedel: “A renda que fica na cidade”

Em Ivinhema, cooperativa com 120 associados, pequenos empresários e programas de qualificação mostram o esforço para transformar a expansão da bioenergia em contratos locais, empregos e novas profissões

Todos os dias, cerca de 700 trabalhadores embarcam nos veículos da Cooperativa dos Transportadores de Angélica (Coopertran). Aproximadamente 300 seguem para operações ligadas à Adecoagro, em Ivinhema. São motoristas, operadores e trabalhadores que ajudam a dar dimensão humana a um movimento econômico normalmente traduzido em cifras, produção e novos empreendimentos industriais.

Para o diretor técnico da Coopertran, João de Campos, é quando o investimento ultrapassa os portões da indústria que seus efeitos aparecem com maior nitidez na vida das cidades.

“Quando a empresa que está chegando ou ampliando seus investimentos busca os prestadores de serviço locais, ela ajuda a desenvolver toda uma cadeia. O trabalho fica aqui, gera emprego para quem mora aqui e movimenta outros negócios da cidade”, afirma.

A própria trajetória da cooperativa ajuda a contar essa história. Criada em 2006 por 20 cooperados, a Coopertran reúne hoje 120 associados e aproximadamente 450 motoristas em operações com caminhões, caçambas, ônibus, vans, caminhões-pipa, patrolas e outras máquinas pesadas. Mais de 90% das atividades e dos cooperados estão concentrados em Ivinhema.

Um de seus principais contratos é com a Adecoagro, complexo agroindustrial que produz açúcar, etanol e bioenergia a partir da cana-de-açúcar.

A experiência sintetiza um dos desafios da expansão da bioenergia em Mato Grosso do Sul: fazer com que os grandes investimentos produzam não apenas empregos nas unidades industriais, mas também contratos para empresas locais, qualificação e renda que permaneça circulando no interior.

É nesse ponto que a estratégia do governo de Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, procura avançar.

“O desenvolvimento se aprofunda quando os contratos alcançam empresas locais, os trabalhadores encontram formação e os jovens deixam de precisar sair da cidade para construir uma carreira”, afirma Riedel.

Da cooperativa à pequena empresa

Em Ivinhema, município com cerca de 30 mil habitantes, esse movimento ocorre em diferentes escalas.

A Coopertran mantém escritórios em Ivinhema, Angélica e Nova Andradina e prepara uma nova etapa de expansão. Em 2026, projetou a construção de um posto de combustíveis próprio em uma área de 10 mil metros quadrados no Polo Industrial José Mendonça, em Ivinhema.

A estrutura deverá dar suporte à frota, aos cooperados e terceirizados e melhorar a logística das operações.

“Temos que aproveitar esse momento para qualificar as pessoas e fortalecer quem já está aqui. Quanto mais preparados estiverem os trabalhadores e as empresas locais, maior será a possibilidade de essas oportunidades permanecerem na nossa região”, diz João de Campos.

O desafio é maior para negócios de pequeno porte. Para uma oficina, transportadora ou prestadora de serviços, chegar a uma grande indústria não significa necessariamente conquistar um contrato.

As companhias exigem regularidade fiscal, programas de segurança, seguros, controle de qualidade, treinamento e capacidade financeira para cumprir prazos. São requisitos necessários à operação industrial, mas que podem se transformar em barreiras para empresas locais pouco acostumadas a grandes contratantes.

Preparar a empresa para atravessar o portão

Foi para reduzir essa distância que cerca de 60 pequenos empresários participaram, em abril de 2025, do Fornece+, iniciativa desenvolvida pelo Sebrae com apoio do Governo de Mato Grosso do Sul para aproximar fornecedores locais das demandas da Adecoagro.

Cada participante teve acesso a até 50 horas de consultoria em gestão, desempenho empresarial e adequação às exigências da companhia.

O lançamento reuniu mais de 140 pessoas e identificou aproximadamente R$ 35 milhões em oportunidades potenciais de negócios. O valor não correspondia a contratos assinados: as empresas ainda precisariam cumprir requisitos e disputar efetivamente as contratações.

A Metalvale conhece esse percurso.

Criada em 2015, a empresa atua nas áreas de construção, metalurgia e comunicação visual e passou por um processo de profissionalização para disputar espaço entre fornecedores de grandes companhias. Atualmente, já presta serviços à Adecoagro.

Para a gerente financeira e de recursos humanos, Marcia Boniolo do Valle, o Fornece+ ajudou justamente em aspectos que muitas vezes permanecem invisíveis para quem observa apenas o contrato final.

“O projeto Fornece+ nos auxiliou a criar ferramentas e mecanismos de organização de todos os documentos e certidões que são pré-requisitos para que possamos prestar serviços para a Adecoagro”, afirma.

O trabalho envolveu também planejamento estratégico, análise de indicadores, acompanhamento das vendas e pesquisa de mercado. Paralelamente, a Metalvale investiu em infraestrutura, logística, tecnologia, governança e estabilidade financeira.

“Hoje, já somos prestadores de serviços para a empresa”, resume Marcia.

Riedel sustenta que a profissionalização permite ampliar os efeitos do investimento.

“O ganho não termina no primeiro contrato. Uma empresa que profissionaliza a gestão, qualifica funcionários e adota novos padrões pode conquistar outros clientes, reduzir a dependência de encomendas ocasionais e abrir novas vagas”, afirma.

R$ 225 milhões e o desafio de fazer o dinheiro circular

A escala das oportunidades tende a crescer.

A Adecoagro anunciou investimento de R$ 225,7 milhões para ampliar a produção de biometano na região de Ivinhema, com novos biodigestores. A expectativa é de criação de pelo menos 100 postos de trabalho quando os equipamentos entrarem em operação.

Uma obra dessa dimensão movimenta construção civil, transporte, alimentação, hospedagem, manutenção e serviços técnicos. Depois da implantação, surgem demandas para eletricistas, mecânicos, operadores, técnicos ambientais e profissionais de laboratório.

Para a economia municipal, a questão é quanto dessa demanda será atendida dentro da própria região.

“Quando essas compras são feitas fora de Mato Grosso do Sul, parte do investimento deixa a região. Quando o fornecedor está próximo, o dinheiro circula na cidade: paga salários, movimenta o comércio, compra peças, contrata contabilidade e sustenta outras famílias”, afirma Riedel.

É a diferença entre receber uma indústria e formar, ao redor dela, uma cadeia econômica.

O primeiro emprego sem precisar partir

Esse impacto também aparece na trajetória dos jovens.

Em Caarapó, a Casa do Trabalhador e a Raízen articularam, em 2025, vagas de aprendizagem destinadas a estudantes do ensino médio, técnico ou superior.

Uma oportunidade desse tipo pode significar a primeira renda própria, contribuição para as despesas familiares e o início de uma experiência profissional que antes poderia exigir mudança para uma cidade maior.

“Durante muito tempo, para muitos jovens do interior, concluir a escola significava procurar emprego em Campo Grande, Dourados ou em outro estado. A industrialização pode mudar esse percurso, desde que existam formação, salário e perspectiva de crescimento”, afirma Riedel.

A permanência desse jovem no município, porém, depende de continuidade. A vaga de aprendizagem precisa se conectar a cursos técnicos e possibilidades de trabalho permanente.

Muito além do trabalho na lavoura

A diversidade das vagas também ajuda a desmontar a imagem de que a economia da cana se resume ao trabalho agrícola.

Em outubro de 2025, 18 empresas disponibilizaram 637 oportunidades em 15 municípios de Mato Grosso do Sul. Cerca de 800 atendimentos foram registrados nas Casas do Trabalhador.

Havia vagas para motoristas, mecânicos, eletricistas, soldadores, operadores agrícolas e industriais, técnicos de laboratório, auxiliares administrativos, aprendizes e supervisores.

O perfil revela uma cadeia que combina campo, indústria, serviços e tecnologia e abre espaço tanto para quem concluiu o ensino médio quanto para trabalhadores com formação técnica ou jovens em busca do primeiro emprego.

O acesso, entretanto, não ocorre de maneira uniforme. Trabalhadores sem qualificação podem permanecer nas funções mais instáveis, mulheres ainda enfrentam barreiras em determinadas atividades industriais e jovens precisam conciliar estudo, deslocamento e jornada.

Por isso, a qualificação precisa estar conectada às vagas existentes e ser acessível à rotina de quem trabalha ou procura uma oportunidade.

O risco de crescer deixando gente para trás

A expansão econômica também pode produzir contradições.

Enquanto empresas mais preparadas conseguem crescer, outras não acompanham as novas exigências. Trabalhadores qualificados disputam funções melhores, enquanto quem teve menor acesso à formação pode permanecer nos postos mais instáveis. O comércio ganha consumidores, mas também pode enfrentar aumento de custos e disputa por mão de obra.

“Por isso, o desenvolvimento só se torna inclusivo quando alcança quem já mora no território”, afirma Riedel.

Em Ivinhema, programas de preparação de fornecedores e empresas que já conseguiram entrar na cadeia da Adecoagro indicam um caminho, mas não eliminam o desafio.

Capacitação não garante contrato. Rodadas de negócios aproximam empresas, mas a oportunidade precisa se transformar em prestação efetiva de serviço para resultar em faturamento e emprego.

A continuidade será decisiva.

Quando o número entra pela porta de casa

A bioenergia já reúne mais de 33 mil empregos diretos em Mato Grosso do Sul e movimenta aproximadamente R$ 1,3 bilhão por ano em salários, segundo a Biosul.

Os números mostram o peso econômico do setor, mas dizem pouco, sozinhos, sobre como essa transformação é percebida nas cidades.

Para uma família, desenvolvimento pode ser o jovem que conseguiu o primeiro emprego sem precisar partir. Para uma pequena empresa, o contrato que permite ampliar a equipe e planejar o mês seguinte. Para um motorista, é continuar trabalhando na própria região.

Na Coopertran, essa dimensão reaparece diariamente quando centenas de trabalhadores entram nos veículos que os levam às operações.

É nesse percurso, entre a casa, o trabalho, a oficina e a indústria, que o investimento deixa de ser apenas uma cifra.

Mato Grosso do Sul abriu uma nova fronteira econômica com a expansão da bioenergia. O desafio agora é fazer com que essa riqueza atravesse os portões das usinas e alcance empresas locais, trabalhadores e famílias.

Em Ivinhema, isso pode começar com uma pequena empresa conquistando o próximo contrato.

Em Caarapó, com um jovem entrando pela primeira vez no mercado de trabalho. Para os cooperados e motoristas da Coopertran, significa fazer com que uma parcela maior do desenvolvimento continue circulando pelas cidades onde eles vivem e trabalham.

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