Com estratégia e olhar para o futuro, a cana vira oportunidade

Em Rio Brilhante, Caarapó e Nova Alvorada do Sul, aproveitamento do bagaço e da vinhaça amplia a bioenergia, cria novas funções e movimenta serviços

Para Jane Rizzo Martinez, o emprego em uma usina de Rio Brilhante significa mais do que salário no fim do mês. Auxiliar de serviços gerais na área de Capina Química da Cocal, ela encontrou no trabalho uma forma de reorganizar a própria rotina familiar e dividir com o marido os cuidados do filho com necessidades especiais.

Jane trabalha no turno A. O marido, no turno B. Enquanto um está na usina, o outro pode permanecer com o filho. Os dois outros filhos do casal também trabalham na empresa. É nesse equilíbrio entre fábrica e família que ela resume o significado do emprego.

“Trabalhar na Cocal representa estabilidade e a oportunidade de construir uma vida melhor para a minha família, principalmente para proporcionar o melhor ao meu filho, que tem necessidades especiais. Eu trabalho no turno A e meu esposo no turno B, então conseguimos nos revezar nos cuidados com ele. Além disso, meus outros dois filhos também trabalham na usina. Para mim, trabalhar é viver”, afirma.

A experiência de Jane ajuda a traduzir uma transformação econômica que ocorre dentro e ao redor das usinas de Mato Grosso do Sul. A cana já não encerra seu ciclo quando o etanol chega aos tanques ou o açúcar sai da indústria. O bagaço alimenta caldeiras e produz eletricidade. A vinhaça e a torta de filtro, antes tratadas principalmente como resíduos do processo, passam a ser utilizadas na produção de biogás e biometano.

Essa diversificação também modifica o mercado de trabalho. Operadores, eletricistas, mecânicos, técnicos de laboratório e profissionais responsáveis por turbinas, caldeiras, automação e controle ambiental passam a dividir espaço com atividades tradicionais do setor. Fora das plantas industriais, o movimento alcança oficinas, transportadoras e fornecedores de peças, equipamentos, construção e manutenção.

Em 2025, Mato Grosso do Sul tinha 22 usinas de bioenergia em operação. Segundo a Biosul, o setor reunia mais de 33 mil empregos diretos e movimentava aproximadamente R$ 1,3 bilhão por ano em salários.

Para o governador Eduardo Riedel (Progressistas), estes números revelam famílias e jovens que encontram no setor uma possibilidade de formação e carreira técnica.

Trabalho também exige qualificação

Jane está há pouco tempo na função, mas sua rotina já mostra uma das mudanças produzidas pela modernização das usinas: mesmo atividades operacionais passaram a exigir treinamento e conhecimento de normas específicas.

Na Capina Química, ela é responsável pelos equipamentos de proteção individual utilizados nas aplicações e auxilia em outras tarefas. Para desempenhar a função, participou de treinamentos oferecidos pela empresa, entre eles o de NR-31, além de orientações para manuseio de materiais contaminados e uso correto de máscaras e demais equipamentos de

proteção.

“É um trabalho dinâmico, que me permite aprender todos os dias, conhecer pessoas e me desenvolver profissionalmente”, resume.

A necessidade de qualificação acompanha o tamanho da produção. Na safra 2024/2025, Mato Grosso do Sul processou 48,5 milhões de toneladas de cana e produziu, considerando cana e milho, 4,2 bilhões de litros de etanol.

Manter uma estrutura desse porte em operação exige profissionais capazes de acompanhar sistemas que não podem parar por falhas mecânicas ou elétricas. Depois que o caldo da cana é extraído, por exemplo, o bagaço alimenta as caldeiras. O calor produz vapor, que movimenta turbinas e aciona geradores. Parte dessa eletricidade abastece a própria indústria; o excedente pode ser enviado para a rede.

O processo exige monitoramento permanente de pressão, temperatura, turbinas e sistemas automatizados.

A mecanização também alterou o perfil das vagas. Atividades antes sustentadas principalmente pelo trabalho físico passaram a envolver leitura de painéis, manutenção preventiva, controle de processos e formação técnica.

“Essa mudança pode abrir oportunidades melhores, mas também cria uma distância entre quem conseguiu se qualificar e quem continua restrito a atividades temporárias ou menos remuneradas”, afirma Riedel.

Da vinhaça ao combustível

Se a geração de eletricidade a partir do bagaço já integra a rotina das usinas, uma nova fronteira começa a ganhar escala em Nova Alvorada do Sul.

A Atvos está implantando no município uma unidade destinada à produção de biometano a partir da vinhaça e da torta de filtro. Nos biodigestores, a matéria orgânica é decomposta e gera biogás. Depois de purificado, esse gás se transforma em biometano, combustível capaz de substituir parte do diesel utilizado por caminhões e máquinas.

O investimento supera R$ 350 milhões, com capacidade estimada de produção de aproximadamente 28 milhões de metros cúbicos por safra. A previsão divulgada pela companhia é de início das operações até o fim de 2026.

Segundo Wilson Lucena, vice-presidente de Operações da Atvos, as atividades da empresa em Mato Grosso do Sul já geram cerca de 11 mil empregos diretos e indiretos. Ele afirma que a nova planta deverá reduzir entre 40 mil e 50 mil toneladas de emissões de carbono por ano.

A empresa pretende utilizar o biometano principalmente na própria frota de transporte de cana. A produção projetada poderá substituir aproximadamente 25 milhões de litros de diesel por ano.

“A previsão é que 50% dos caminhões sejam operados com o biometano produzido aqui, reduzindo emissões e tornando nossa operação ainda mais sustentável”, afirma Lucena.

Mais do que uma mudança de combustível, o projeto amplia a cadeia de atividades em torno da produção. Antes mesmo de começar a operar, uma planta dessa dimensão demanda construção, montagem, transporte, automação e equipamentos. Depois de pronta, continua necessitando de operadores, mecânicos, eletricistas, peças, manutenção e profissionais ligados ao controle ambiental.

Riqueza precisa ultrapassar os portões da usina

É nesse ponto que a chamada economia circular deixa de ser apenas um conceito industrial e passa a produzir efeitos sobre a economia das cidades.

Para uma oficina, uma transportadora ou um fornecedor regional, a instalação de uma nova indústria pode representar contratos mais estáveis. Para trabalhadores, pode significar a passagem de serviços temporários para funções técnicas permanentes.

Mas esse efeito não é automático.

“O ganho não pode ficar restrito ao balanço das grandes empresas. Para alcançar a economia local, os investimentos precisam contratar trabalhadores, comprar de fornecedores regionais e movimentar manutenção, peças, construção, transporte e serviços técnicos”, afirma o governador.

Na estratégia defendida pela gestão estadual, atrair grandes empreendimentos é apenas uma etapa. Outra é ampliar a participação de empresas e trabalhadores sul-mato-grossenses na cadeia criada ao redor dos investimentos. Quando equipamentos, mão de obra especializada ou serviços são contratados fora do Estado, parte da riqueza também deixa de circular nos municípios onde a produção ocorre.

Os números do emprego revelam justamente que a presença de uma grande indústria não garante, sozinha, crescimento contínuo das vagas.

Nova Alvorada do Sul encerrou 2025 com saldo positivo de 1.151 empregos formais, um dos melhores resultados do Estado. No mesmo período, considerando todas as atividades econômicas, Rio Brilhante perdeu 272 postos e Caarapó registrou saldo negativo de 59.

A diferença mostra que o impacto econômico das usinas precisa ser observado além do volume produzido ou do valor investido. Grandes obras podem contratar centenas de trabalhadores na fase de implantação e reduzir os postos quando os canteiros são desmontados. Ao mesmo tempo, outros setores da economia municipal podem perder vagas mesmo enquanto a indústria

mantém ou amplia sua produção.

Para uma família, a diferença é concreta: está entre conseguir renda durante alguns meses e construir uma carreira capaz de permanecer depois que a obra termina.

“O desafio é transformar os períodos de investimento em uma base econômica mais duradoura: trabalhadores qualificados, fornecedores locais e atividades que continuem movimentando renda depois que os canteiros forem desmontados”, diz Riedel.

Desenvolvimento verde também precisa chegar às famílias

A expansão da bioenergia coloca Mato Grosso do Sul diante de uma oportunidade que combina indústria, redução de emissões e aproveitamento mais eficiente da matéria-prima. Mas os resultados sociais dependerão da capacidade de transformar avanço tecnológico em empregos estáveis, qualificação profissional e negócios que permaneçam nos municípios.

Em Rio Brilhante e Caarapó, a bioenergia já integra a estrutura econômica local. Em Nova Alvorada do Sul, o biometano abre uma nova etapa, ligada à substituição de combustíveis fósseis e ao reaproveitamento de materiais que já fazem parte da produção sucroenergética.

Para Riedel, a transição precisa combinar competitividade, sustentabilidade e oportunidade local. Isso significa medir o desenvolvimento não apenas pelos milhões investidos ou pela capacidade das novas plantas, mas também pelos empregos que permanecerem, pelos trabalhadores que conseguirem se qualificar e pela presença de empresas sul-mato-grossenses nos contratos gerados pela expansão.

Na casa de Jane, essa discussão econômica já tem uma tradução cotidiana. A estabilidade do emprego permite que ela e o marido organizem os turnos para cuidar do filho, enquanto o trabalho abre espaço para novos aprendizados profissionais. É uma pequena engrenagem familiar dentro de uma indústria que tenta aproveitar cada vez mais tudo o que a cana oferece.

Quando o bagaço vira eletricidade e a vinhaça retorna ao processo como combustível, a bioenergia deixa de ser apenas uma questão de produção. O desafio é fazer com que essa transformação também atravesse os portões das usinas — e permaneça, em forma de trabalho, renda e perspectivas, na vida de quem mora no interior de Mato Grosso do Sul.

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