Quem dedicou décadas à família, ao trabalho, à fé e à comunidade não deve ser tratado como espectador das decisões que definirão o país
Por Dr. Luiz Ovando
Há um equívoco que precisa ser enfrentado: a ideia de que envelhecer significa retirar-se da vida pública. A democracia demonstra exatamente o contrário. Quem viveu mais, trabalhou, formou uma família, enfrentou crises e acompanhou profundas transformações sociais reúne um patrimônio que não se mede apenas em anos, mas em discernimento, memória e responsabilidade.
A partir dos 70 anos, o voto passa a ser facultativo no Brasil. Facultativo, porém, não significa dispensável. Significa liberdade para decidir participar, e essa participação continua sendo fundamental para a cidadania e para o equilíbrio democrático.
O eleitor sênior conhece, muitas vezes pela própria experiência, a diferença entre promessa e realização. Sabe que decisões políticas não permanecem restritas aos gabinetes. Elas chegam à farmácia, ao posto de saúde, ao orçamento familiar, à aposentadoria, ao transporte público e às condições oferecidas para envelhecer com autonomia e dignidade.
Por isso, o voto dos 60+ e 70+ não deve ser compreendido apenas como expressão numérica de uma parcela do eleitorado. Ele representa a presença de uma geração que ajudou a construir cidades, sustentar famílias, criar empregos, servir às igrejas e consolidar instituições.
Na perspectiva cristã, honrar os mais velhos não pode ser apenas um gesto cerimonial. É preciso reconhecer sua sabedoria, escutar sua voz e assegurar sua participação. As Escrituras associam a longevidade ao entendimento e apresentam a experiência como fonte de conselho e prudência. Essa responsabilidade alcança também a vida pública.
Votar conscientemente não significa escolher movido pelo medo, pela pressão ou por uma informação superficial. Significa analisar a trajetória, a integridade, as propostas e a coerência daqueles que se apresentam para representar a população. O voto responsável não se entrega a discursos fáceis; ele procura compromisso, preparo e resultados.
Como médico e parlamentar, compreendo que envelhecer com qualidade exige mais do que homenagens. Exige políticas públicas concretas. Por essa razão, apresentei o Projeto de Lei 3.631/2019, que propõe a criação, dentro do Sistema Único de Assistência Social, do Serviço de Assistência Comunitária à Pessoa Idosa, o SERVIDOSO. A iniciativa busca ampliar a informação, a orientação, o atendimento e a proteção social destinados às pessoas idosas.
Também sou autor do Projeto de Lei 1.001/2023, que permite a dedução das despesas com medicamentos na base de cálculo do Imposto de Renda da Pessoa Física. Trata-se de reconhecer uma realidade vivida por milhões de brasileiros: com o avanço da idade, os gastos com tratamentos e remédios podem comprometer uma parcela significativa da renda familiar. A proposta continua em tramitação na Câmara dos Deputados.
Essas iniciativas revelam por que a participação política importa. Leis sobre medicamentos, assistência social, saúde, acessibilidade, proteção contra a violência e qualidade de vida são discutidas e decididas por representantes escolhidos nas urnas.
O eleitor experiente não vota apenas pensando em si. Em muitos casos, vota preocupado com os filhos, com os netos, com a estabilidade das famílias, com a preservação das liberdades e com o país que será deixado às próximas gerações. Seu voto carrega passado, responsabilidade presente e compromisso com o futuro.
O Brasil precisa de um verdadeiro pacto entre gerações. A juventude traz energia e renovação; a maturidade oferece prudência, memória e equilíbrio. Uma democracia saudável não coloca essas gerações em lados opostos. Ela reconhece que ambas são necessárias.
A experiência não perde valor com o passar do tempo. Ao contrário: quando encontra espaço para participar, torna-se uma das forças mais importantes para orientar as escolhas nacionais.
Quem ajudou a construir o Brasil também deve continuar ajudando a decidir os seus caminhos. A experiência não se aposenta. Ela orienta o futuro.




