Resultado de pesquisa conduzida pela professora Etna Gutierres, projeto reúne relatos de educadores musicais, dados sobre inclusão e reflexões sobre acessibilidade cultural
Campo Grande recebe, no próximo dia 25 de maio, o lançamento do livro “Só o Amor Não Basta – Retrato da Educação Musical Inclusiva em Campo Grande”, resultado de um projeto cultural realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). O evento acontece às 8h30, na Escola Especial Colibri, e contará com apresentação cultural dos alunos do coral da Escola Especial Colibri. A obra reúne dados inéditos, relatos de professores e análises sobre os desafios e possibilidades da inclusão de pessoas com deficiência em atividades musicais.
A pesquisa foi conduzida pela professora e pesquisadora Etna Gutierres, que entrevistou educadores musicais de diferentes contextos para compreender como a inclusão acontece na prática e quais barreiras ainda impedem o acesso pleno à cultura.
Segundo Etna, o projeto nasceu da percepção de que a inclusão musical ainda é pouco discutida fora do campo terapêutico. “Quando falamos de pessoas com deficiência, normalmente pensamos em saúde, tratamento ou superação. Mas pouco se fala sobre o direito à arte e à cultura. A música também precisa ser compreendida como espaço de pertencimento, aprendizado e participação”, afirma.
Os dados levantados pela pesquisa revelam um cenário de contrastes. Entre os professores entrevistados, 88% afirmaram já ter trabalhado com alunos atípicos, enquanto cerca de 73% disseram não possuir formação específica para atuar com pessoas com deficiência. Para a pesquisadora, o resultado mostra que a inclusão já acontece dentro das salas de aula, mas muitas vezes sem suporte institucional adequado.
“Os professores estão tentando incluir, adaptando materiais, reorganizando metodologias e aprendendo no cotidiano. Mas inclusão não pode depender apenas da boa vontade individual. Precisamos falar sobre formação, acessibilidade e políticas públicas”, destaca Etna.
A pesquisa também identificou obstáculos estruturais e institucionais. Entre os relatos coletados, há casos de estudantes cadeirantes que não conseguiram permanecer nas aulas por falta de acessibilidade arquitetônica nos espaços culturais e educacionais. “Tivemos o relato de um professor que precisou interromper o atendimento de um aluno porque o prédio não tinha elevador. Isso mostra que ainda existe uma distância grande entre o discurso da inclusão e a realidade”, comenta.
Ao mesmo tempo, o estudo reuniu experiências positivas de acessibilidade atitudinal, como ampliação de partituras para alunos com deficiência visual, adaptação de oficinas culturais e criação de estratégias pedagógicas personalizadas. “A acessibilidade também está nas atitudes. Estar inteiramente com o outro, compreender suas necessidades e construir caminhos juntos faz parte do processo inclusivo”, pontua a pesquisadora.
Além de apresentar os resultados da investigação, o lançamento do livro marca a entrega oficial do projeto desenvolvido por meio da PNAB. A programação inclui apresentação dos alunos do coral da Escola Especial Colibri, reforçando a proposta do projeto de valorizar a música como ferramenta de inclusão e expressão cultural.
“O objetivo sempre foi transformar percepções em dados e dados em discussão pública. Quando levamos essa pauta para a universidade, para a pesquisa científica e agora para a comunidade”, conclui Etna Gutierres.



