Informação correta e avaliação detalhada são fundamentais para garantir segurança em cirurgias e exames
O uso das chamadas canetas emagrecedoras avança no Brasil e já está presente em uma parcela significativa da população. Hoje, 62% dos brasileiros afirmam conhecer alguém que utiliza ou já utilizou esse tipo de medicação, e em 33% dos domicílios há pelo menos um morador que faz ou fez uso. Os dados são do Instituto Locomotiva, que analisa hábitos, consumo e comportamento da população em todo o país, e mostram um crescimento relevante em relação ao levantamento anterior, quando o índice era de 26%.
Com a popularização desses medicamentos, cresce também a atenção de especialistas para um efeito que nem sempre é percebido pelos pacientes, mas que pode impactar diretamente a segurança de procedimentos com anestesia.
Segundo o médico anestesiologista Luiz Gustavo Orlandi de Sousa, do Servan Anestesiologia, o ponto central está na forma como essas substâncias atuam no organismo. “O uso das canetas emagrecedoras altera o esvaziamento do estômago após a refeição. Esses pacientes, mesmo após 8 horas de jejum, são considerados com estômago cheio”, explica. Na prática, isso pode contraindicar a realização de procedimentos anestésicos eletivos, devido ao risco de broncoaspiração.
Novos cuidados
A broncoaspiração ocorre quando o conteúdo do estômago chega aos pulmões durante a anestesia, uma condição grave e potencialmente fatal. “É uma complicação extremamente séria, que pode levar inclusive ao óbito”, afirma o especialista.
O alerta também é reforçado por entidades médicas. A Sociedade Brasileira de Anestesiologia, em conjunto com a Sociedade Brasileira de Diabetes, recomenda a suspensão da semaglutida — princípio ativo presente em medicamentos como Ozempic®, Rybelsus® e Wegovy® — e de fármacos com mecanismo semelhante, como o Mounjaro®, por até 21 dias antes de procedimentos cirúrgicos eletivos. A orientação considera a meia-vida dessas medicações e o impacto no esvaziamento gástrico, fator diretamente associado ao risco de aspiração durante a anestesia.
Outro ponto de atenção está no uso sem acompanhamento médico e na omissão de informações durante a avaliação clínica. Por serem relativamente novas e de fácil acesso, essas medicações são frequentemente utilizadas sem orientação adequada. “Muitos pacientes fazem uso dessas medicações sem orientação e acabam omitindo essa informação ao se submeterem a exames ou cirurgias”, destaca Luiz Gustavo.
As orientações para suspensão do uso antes de procedimentos também variam conforme o perfil do paciente. Para pessoas com diabetes em acompanhamento, a recomendação da Sociedade Brasileira de Diabetes é interromper o uso por sete dias, com preparo específico. Já para quem utiliza as canetas com foco em emagrecimento, a orientação da anestesiologia é de suspensão por até 21 dias antes de procedimentos eletivos.
Nesse contexto, a consulta pré-anestésica se torna decisiva. É nesse momento que o anestesiologista avalia o histórico do paciente e identifica fatores que podem interferir na segurança do procedimento. “O paciente deve informar o uso de todas as medicações que utiliza frequentemente, incluindo essas canetas, além de suplementos e hormônios”, orienta. Apesar disso, ainda há desconhecimento sobre os efeitos dessas substâncias. “Muitos pacientes não têm clareza sobre os riscos e alguns acabam omitindo essa informação, inclusive por vergonha”, afirma.
Por se tratar de uma classe de medicamentos relativamente recente, ainda não há protocolos completamente consolidados sobre a segurança anestésica nesses casos. Diante desse cenário, a avaliação individualizada e a transparência na consulta são fundamentais para reduzir riscos e garantir a segurança em procedimentos que envolvem anestesia




