Mudanças na legislação e redução de custos ampliam presença de produtos que imitam chocolate e levantam alerta sobre qualidade e saúde

Evelise Couto – Com a proximidade da Páscoa, o consumo de chocolates cresce em todo o país e, junto com ele, aumenta também a oferta de produtos que apenas imitam o alimento tradicional. Mais baratos e visualmente semelhantes, os itens conhecidos como “sabor chocolate” ganham espaço nas prateleiras e atraem consumidores, mas levantam dúvidas sobre composição, qualidade e impactos à saúde.
Esse movimento tem relação direta com mudanças na legislação brasileira. A publicação da Resolução RDC nº 264/2005 flexibilizou a composição mínima exigida para os chocolates, reduzindo o teor de sólidos totais de cacau de 32% para 25% nos produtos amargos e ao leite. No chocolate branco, o percentual mínimo de manteiga de cacau passou a ser de 20%. Na prática, isso abriu espaço para a inclusão de outros ingredientes nas formulações, especialmente gorduras vegetais que substituem a manteiga de cacau, mais cara, contribuindo para a redução dos custos de produção e para a popularização de versões mais acessíveis.
Esse ponto chama atenção para o papel da tecnologia de alimentos na indústria e evidencia um movimento em que, muitas vezes, a qualidade nutricional deixa de ser prioridade. A substituição de ingredientes nobres por alternativas mais baratas é uma decisão tecnológica mas quem arca com essa perda, no final, é o consumidor.
O que está por trás do chocolate mais barato nas prateleiras
É nesse cenário que se consolidam os produtos rotulados como “sabor chocolate”, “composto” ou “cobertura”. Apesar da aparência e do gosto semelhantes, eles apresentam diferenças importantes em relação ao chocolate tradicional, principalmente por terem menor teor de cacau e utilizarem substitutos da manteiga de cacau. Como resultado, não podem ser considerados chocolate de fato e tendem a oferecer menor valor nutricional.
A diferença vai além da composição. O chocolate com maior teor de cacau é fonte de compostos antioxidantes, como os polifenóis, associados a benefícios como proteção cardiovascular e ação anti-inflamatória. Produtos com 60% ou 70% de cacau, por exemplo, concentram essas propriedades. Já as versões com baixo teor de cacau e maior presença de açúcar e gorduras alternativas perdem esses efeitos e se aproximam de alimentos ultraprocessados.
Docente do curso de nutrição da Estácio, Fabiana Casagranda reforça que a atenção deve começar pela composição. “O que traz benefícios ao organismo é a presença da massa de cacau, rica em compostos antioxidantes. Quando o produto tem baixo teor de cacau e maior quantidade de açúcar e gorduras substitutas, ele perde essas propriedades e pode aumentar riscos metabólicos”, explica.
A nutricionista também chama atenção para a leitura dos rótulos, que vai além da consciência nutricional e se torna uma ferramenta para avaliar a qualidade do produto e a relação entre o que se paga e o que se consome. Nem tudo que tem aparência de chocolate entrega a mesma composição, os mesmos benefícios ou um valor condizente com o preço. “Termos como ‘sabor chocolate’ já indicam que aquele produto não tem a composição de um chocolate tradicional e, geralmente, possui menos cacau e mais gordura vegetal”, orienta.
Chocolate em pauta
Diante desse cenário, uma nova proposta em discussão no Congresso busca elevar o padrão dos produtos comercializados no país. Em 17 de março, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que estabelece novos percentuais mínimos de cacau. A proposta prevê, por exemplo, que chocolates intensos tenham pelo menos 35% de sólidos totais de cacau, acima dos 25% atualmente exigidos pela Anvisa. Também define regras para chocolate ao leite, chocolate branco e cacau em pó, além de tornar obrigatória a informação do percentual de cacau nos rótulos.
O texto segue agora para análise no Senado e pode representar uma mudança importante na qualidade dos produtos disponíveis no mercado brasileiro. Até lá, especialistas reforçam que o consumo consciente é o melhor caminho.
E aqui vale um ponto importante: a Páscoa carrega um significado cultural e simbólico, e o chocolate faz parte dessa experiência. Fabiana lembra que não se trata de evitar o consumo ou reduzir a data a uma discussão sobre nutrientes e calorias. O foco deve estar na qualidade do que se consome e na consciência das escolhas
“Na Páscoa, não é necessário deixar de consumir chocolate, mas é importante priorizar opções com maior teor de cacau e manter o equilíbrio”, conclui a nutricionista.

Em meio a uma oferta cada vez mais diversa, entender o que está por trás do rótulo é essencial para aproveitar a data sem abrir mão da saúde e, principalmente, sem abrir mão da qualidade.



